Ascensão do Terceiro

A Fuga de Under-Tyr

Conto

“Você pode conseguir ir muito mais longe com uma palavra amável e uma arma do que você pode com uma palavra amável e sozinho.”

Al Capone

- Acorde elfo vagabundo!

Uma mão de terra atingiu meu rosto descoberto, forçando-me a tossir a areia fora, enquanto me levantava. Não lembrava direito a razão de estar numa gruta escura, imunda e gelada, mas aos poucos os fatos foram voltando a minha mente ao observar Kaera ao meu lado, sentada, com o brilho de seus olhos apagado, como se tivesse perdido a vontade de viver.

- Onde estamos?

A pergunta saiu, mas Kaera pareceu não escutar. Apenas quando levantei e a toquei ela percebeu que estava catatônica. Algumas horas tinham passado desde nosso espancamento público nas ruas de Tyr, graças ao nosso bem-feitor, o Templário Byden, após resgatar sua querida irmã Roslyn. Nossa incapacidade de eliminar uma aldeia de Salteadores Draconatos e a ira de Byden ao ouvir nossa proposta para executar Roslyn foram motivações suficientes para que o bom templário nos condenasse a morte e tortura nas câmaras em Under-Tyr, onde vários vão, mas ninguém retorna.

- Oh, Erdan! – Kaera me abraçou, seus braços pegajosos, molhados de sangue seco e grudento. Seu corpo tremia de medo, algo que nunca esperaria de uma caçadora da Wasteland. Algo de ruim estava acontecendo.

Com a maior delicadeza que consegui, afastei Kaera, que me apertava com força, lentamente até que pudesse ver seu rosto e conversar diretamente. – Onde estamos? O que aconteceu?

- Estamos em Under-Tyr. – ela falou, antes de engolir um soluço e segurar uma lágrima.

- Disso eu sei. Conheço bem a cidade.

Ela me apertou mais uma vez, o que foi bastante desencorajador. – Eles os levaram! – ela soluçou. – Primeiro Jikon e depois… Hiekan.

Por alguma razão, o relacionamento de Kaera, que era uma bela elfa, com seu antigo líder Hiekan era mais do que profissional. Eles eram amigos, ou amantes, algo que não me entrava na cabeça.

- Kaera. – eu não era bom em discursos encorajadores, mas tentei o meu melhor. – Estamos presos numa caverna e não sabemos como sair. Se quisermos sair vivos e evitar o destino de Hiekan e Jikon, temos que pensar num jeito de escapar.

Pela primeira vez um discurso meu aparentou funcionar. Kaera estava mais alerta, ativa e finalmente me largou. Não que eu estivesse reclamando, mas ela não estava especialmente atraente quando suja de sangue humano.

- Muito bem. – ela limpou o rosto e se recompôs. – Vamos… vamos fazer isso! Vamos surpreender o guarda e agarrá-lo.

Eu ri, curto e sarcástico, mas de forma que ela entendeu que isso era loucura. Nossos captores eram meio-gigantes, fortes e armados, enquanto nós dois éramos elfos desarmados, subnutridos e feridos. Vi a face da esperança sumir de seu rosto, enquanto eu me recostava contra a parede de pedra. Observando todo o ambiente, comecei a fechar os olhos lentamente, procurando uma saída.

- Estamos perdidos, então! – disse ela, sentando ao meu lado. – Não há escapatória! Apenas essa agonia de não saber quem será o próximo, ou o que nos espera lá fora!

O desespero de Kaera não era desconhecido para mim, mas eu tinha aprendido a controlar meus medos. Nós da Tribo Shtar estávamos acostumados a nos encontrar em situações desesperadoras, onde o medo toma nossos corações e nubla nossas decisões. Éramos treinados arduamente a nunca desistir, nunca se render, sempre buscar uma saída, sempre tentar sobreviver.


Anos Atrás

- Nohan, o que foi?

Estava parado ao lado de uma caravana destruída. Provavelmente tribos canibais, afinal toda a carga ainda estava no local, mas a comida e os tripulantes tinham sido levados. Arrastados, amordaçados, prontos para serem servidos.

- Canibais.

- É, mas da mesma tribo que vimos anos atrás, lembra? – disse Nohan.

- Devo chamá-lo?

Nohan apenas fez sim com a cabeça e eu comecei a retornar a aldeia. A Tribo estava lá, pronta para mais uma jornada de 50 km pelo deserto, mas esperava a ordem de nossos batedores para avançar. Entretanto, teríamos que adiar nossa partida, afinal tínhamos encontrado algo que um de nós, um bem próximo de mim, estava procurando a tanto tempo.

- Shav. – disse, enquanto entrava na tenda de um elfo sentado ao chão, observando um velho livro, algo raro por esses cantos. – Encontramos uma caravana.

Shav virou-se. Seu rosto era perfeitamente simétrico, similar ao meu. Seus olhos eram profundos e tinham um ar de sabedoria intelectual que era incapaz de descrever.

E ele também era meu irmão.

- Erdan, não acredito que tenha mais alguma esperança de encontrar aqueles que me trouxeram até aqui. Mas se você e Nohan acham isso, não custa nada tentar, certo?

Minha relação com Shav não era das mais amistosas. Desde que ele chegou, tem sido o alvo das atenções da Tribo Shtar, inclusive de Vanya. Ela, que tinha sido prometida a Erdan, estava curiosa sobre o culto e educado Shav, o que deixava Erdan preocupado.

- Erdan, você e… oh, não o tinha visto, Shav. – disse Vanya que, como se saísse de meus pensamentos, aparecera no local.

- Vanya, está linda hoje. – disse Shav, tomando mais liberdades do que eu permitida. – Como está seu dia?

- Perfeito. – ela respondeu, jovial e feliz como sempre, mas ao perceber minha feição séria, ela logo mudou de assunto. – Erdan, preciso de mais medicamentos, o ferimento de Kurya está muito feio.

- Eu vou conversar com Nohan, estamos passando por um ninho de insetos, acho que podemos aproveitar alguns deles. – voltei-me para Shav. – Então, vamos?

O caminho, que era razoavelmente longo, foi se estendendo cada vez mais a nossa frente. O silêncio perdurou entre nós, até que finalmente Shav quebrou a trégua.

- Ela será uma ótima esposa…

- Não pedi sua opinião. – respondi, seco. Não gostava que Shav tivesse olhos para Vanya. Aparentemente, a única elfa que não podia ter se tornara uma missão para meu irmão.

- Erdan, eu juro, seus ciúmes são infundados!

Segurei forte meu arco. – Não são ciúmes, Shav. São fatos. Você usa de seus truques mágicos que, para mim, são perigosos e atraem um monte de inimigos que eu não tinha antes. Esses truques podem afetar a mente dos outros, eu já vi você fazendo isso. Eu confio plenamente em Vanya, mas não em você.

Shav ficou sem palavras, algo raro para o sabe-tudo, mas coçou o queixo e continuou após uma pausa. – Eu… queria poder recuperar os anos que estivemos longe um do outro, Erdan. Queríamos que fôssemos irmãos de verdade, não apenas por um fato de termos o mesmo pai. E que pudéssemos confiar um no outro. O que eu preciso para que isso aconteça?

Neste minuto, chegamos a caravana. – Uma coisa apenas. – disse, parando antes que Nohan pudesse nos ouvir. – Que você pare de dar em cima de minha mulher.


Presente

- Erdan! Você está me ouvindo?

Acordei de súbito de minhas lembranças do passado. Logo notei que Kaera estava me sacudindo. Eu aparentemente tinha sucumbido a dor e desmaiado num sono com sonhos sobre meu passado.

- Você… é mais bonito do que imaginei.

Percebi que minha máscara de ar tinha sumido, culpa dos carcereiros. Sabia que Kaera estava apenas jogando conversa fora, afinal eu nunca dei qualquer razão para ela se interessar em mim. Mas já havia algum tempo desde que eu tinha estado com uma elfa, a última foi com uma humana e até o momento estava enojado por minha atitude. Entretanto, eu…

- Já sei. – disse, falando baixo para Kaera.

- O quê?

- Sei como podemos escapar. – falei, enquanto escutava os pesados passos do meio-gigante se aproximando. – Mas tenho que lhe perguntar algo.

Neste momento, segurei o rosto de Kaera com uma mão e, com a outra, uma pedra pontiaguda que tinha encontrado.

- O quê? – falou Kaera, fechando os olhos enquanto aproximava meu rosto do seu.

- Você não é virgem, é?

Neste momento, ela se surpreendeu. A expressão facial era mais que suficiente para determinar sua resposta. Joguei-a no chão com força, o baque de seu corpo contra as pedras fazendo um barulho considerável. Neste momento, comecei a rasgar sua roupa com a pedra pontiaguda, enquanto seu corpo começava a aparecer na escuridão da caverna.

Seus gritos chamaram a atenção do meio-gigante.

- Que tá acontecendo aqui? – falou o não tão esperto meio-gigante.

- O quê? – eu disse, sorrindo. – Eu estou me divertindo pela última vez antes que vocês me levem minha vida.

O meio-gigante achou engraçado como eu tentava estuprar minha colega de cela. Pega de surpresa, apesar de ser mais forte que eu, ela não conseguiu se desvencilhar de minha investida. Eu já estava começando a retirar minhas roupas quando um humano cheio de cicatrizes entrou junto com o meio-gigante na minúscula cela, tornando o ato meio constrangedor.

- Bem, você realmente ganhou um belo corpinho para se divertir, elfo! – ele disse, enquanto lambia os lábios e observava os seios nus de Kaera. – Mas os presos não são permitidos terem diversão, apenas dor!

Neste momento, o meio-gigante me jogou contra a parede com um golpe das costas de sua mão. Com cuidado, evitei que batesse com a cabeça em uma pedra, me esgueirando nas sombras enquanto o humano se despia e o meio-gigante segurava Kaera, agora realmente incapaz de escapar, para que o ato começasse.

Os gritos de desespero de Kaera foram desaparecendo, enquanto minha busca pelo lado de fora de minha cela se provava frutífera: confiantes de que nenhum preso jamais escaparia, os guardas estavam distraídos, escutando tranquilamente Kaera ser violada, ofegando ao imaginar que eles seriam os próximos.

- Eu precisarei disso.

O golpe no pescoço do guarda foi fatal. O humano sangrou sua carótida inteira, enquanto tentava falar algo. O anão, que ainda tinha tempo de se levantar, foi infeliz, tropeçou numa pedra e, caído com uma pancada na cabeça, apenas desmaiou do impacto da pedra em seu crânio. Bati forte novamente, apenas para garantir que ele continuaria no chão.

- Por favor! Pare! Não!

O guarda estava em transe, parecia que não tinha relações por um bom tempo. – Você, minha querida, é a melhor foda que tive na minha vida!

Num momento, os braços de Kaera foram soltos. O meio-gigante estava com o pescoço perfurado por um disparo de besta por trás. O sangue espirrou na boca do guarda, que logo largou Kaera. Liberta, ela, num movimento rápido, pegou o pescoço do guarda e lentamente girou de uma forma que pescoços não giram.

A besta do guarda, que tinha poucas munições, estava em minhas mãos. Sem perder tempo, comecei a me vestir como um guarda, torcendo para que existissem guardas elfos nesta câmara também. Kaera, debruçada ao chão vomitando o que restou de seu estômago, olhou para mim, seminua, com aquele olhar assassino.

- Seu… monstro… – ela balbuciou, enquanto puxava a espada do guarda e se preparava para me atacar.

Levantei as mãos em posição de rendição e, sem entender, ela parou.

- Por quê? Por que fez isso comigo? – ela disse, com os olhos cheios de lágrimas.

- Para escaparmos. Para lhe dar esperança. Era a única forma, acredite em mim.

Cheguei perto dela e, lentamente, abaixei sua espada para evitar que ela ferisse alguém. Numa explosão de raiva, ela me golpeou com um chute no estômago. Tudo bem, acho que mereci isso. E continuou a esfaquear o guarda que a tinha estuprado, até que ele ficasse irreconhecível.

- Da próxima vez. – ela disse, agora recomposta. – Você que é estuprado.

Passando pelos escuros corredores de Under-Tyr, encontramos várias coisas que não achávamos que existiam almas vivas que faziam isso com seus prisioneiros. Acho que a maldade nas pessoas as torna piores quando descobrem que há Reis-Feiticeiros que permitem este tipo de atitude. Em uma das celas, encontramos Hiekan. Ou o que sobrou dele.

- Hiekan, por favor, responda!

Kaera tentava inutilmente reanimar o corpo de seu antigo líder/amigo/amante. Ele, para mim, estava destruído, seus captores fizeram um belo serviço, digno de um Salteador. Sem mãos, pés, rótulas, pálpebras, língua e dentes, Hiekan era um zumbi, mas pelo menos um desmaiado.

Até que Kaera teve a brilhante ideia de tentar acordá-lo. Tentei impedi-la, mas os urros de dor de Hiekan foram aterrorizantes demais para ela quando acordou.

- Hiekan! Malditos, eles vão pagar por isso!

- Kaera. – alertei-a. – Você sabe o que eu preciso fazer, não é?

- Não! – ela gritou, segurando a cabeça gemente de Hiekan.

- Mas, Kaera…

Ela interrompeu. – Eu mesmo faço! – ela puxou a espada do guarda. – Ele era da minha equipe, era minha responsabilidade! Eu faço!

Respeitando seus desejos, baixei minha pedra pontuda e me afastei. Um grito silenciado por um golpe seco de espada, seguido de um choro alto, se seguiram. Um minuto depois, Kaera saiu do quarto, completamente fria e recomposta.

- Então, como escapamos daqui? – perguntou.

- Eu já visitei Under-Tyr uma vez. Mas foi apenas nos níveis habitáveis, não nos The Sorrows. Eu pensava que não tinha nada de importante aqui.

- Pois bem. – ela disse. – Lidere o caminho.

Saímos procurando por vários túneis até que encontramos uma sala iluminada. Aparentemente, esta sala era do chefe dos guardas das câmaras de tortura. Lá haviam alguns documentos, peças de cerâmica (devidamente roubadas) e troféus de criaturas de Athas.

Começamos a comer a comida e beber a água do ambiente, relaxando por um tempo. Mas fomos surpreendidos quando um grupo de guardas, liderados por um comandante templário, desceram das escadas.

Um comandante templário que eu conhecia muito bem.


Anos Atrás

- Então, encontrou algo?

Eu estava irritado com a demora que Shav estava tendo para procurar a caravana. Nohan tinha nos deixado para iniciar a mudança da aldeia. Eu fiquei para trás para garantir que Shav retornasse em segurança, mas para mim ele estava nos deixando cada vez mais em perigo.

- Shav! – falei, perdendo a paciência. – Esta é uma região de canibais, quanto mais demorar, mais fácil de nos tornarmos seu almoço se torna!

Ao entrar na caravana, percebi Shav sentado no fundo da carroça segurando um pingente. Era feito de metal, algo que me impressionou muito, inscrito finamente com runas que não reconhecia. Shav finalmente saiu de seu transe e sorriu quando me aproximei.

- Irmão! – ele disse. – Este é um pingente de minha mãe.

Shav era meio-irmão. Nosso pai aparentemente tinha se engraçado com uma elfa de Balic em suas viagens solitário e a engravidado. A vida dele com minha mãe não foi muito feliz depois disso, como disse Nohan, e esta era uma das minhas preocupações com meu futuro com Vanya.

- Shav, vamos embora. Temos que sair daqui o mais rápido possível.

- Você não entende. Isso significa que ela ainda pode estar viva. Em Balic.

Eu realmente não compreendi. – Mas se seu pingente está aqui, ela provavelmente foi capturada por canibais!

- Não. Este pingente estava endereçado a ela. – Shav mostrou-me um documento assinado.

Shav tinha me ensinado a ler e escrever. Algo que ele chamava de “retribuição” por “salvar sua vida”, após o encontramos numa caravana para Tyr atacada por selvagens. O que consegui discernir era que um dos nobres de Tyr estava enviando um presente para Penot, a mãe de Shav, uma patrícia de Balic.

- Então… – falei pensativo. – Isso significa que você vai embora?

Shav balançou a cabeça positivamente. – E eu agradeceria eternamente se pudesse me levar a Tyr. De lá eu poderia ir sozinho a Balic.

Foi neste momento que eu vi, pela última vez, meu irmão.


Presente

Shav.

Mas uma vez, o destino cruzava nossos caminhos. Não sabia porque aquele mago estava lá, mas era uma ótima visão. Entretanto, ele aparentemente não nos reconheceu, pois mandou os guardas nos abordarem.

- Parados aí! – gritou um dos guardas. – Em nome do Rei Kalak!

Eu e Kaera nos preparamos para lutar, mas estávamos claramente em desvantagem. Armados e blindados, os guardas do templário, meu irmão, iam nos derrotar com certeza.

Um cheiro de carne assando, então, surgiu no ambiente. Logo, os dois guardas estavam pegando fogo, gritando em desespero enquanto suas armaduras colavam com seus ossos e eles se desfaleciam no chão. Foi então que percebi que Shav tinha sido tão traiçoeiro quanto esperado de um mago.

- Um feiticeiro! – gritou Kaera, preparando-se para investir.

Eu a impedi, enquanto me aproximei e percebi que a feição de Shav estava sólida, como se ele tivesse passado por muito. Quase não o reconheci e, é claro, acredito que ele quase não tenha me reconhecido.

- Erdan. – ele falou, em voz baixa, como se estivesse sentindo dores. – Somente você para estragar um plano de anos de planejamento.

Kaera parou e nos observou. – Você o conhece?

- Ele é meu irmão. – Kaera ficou impressionada, mas logo percebeu a semelhança entre nós dois. – Shav, vai nos ajudar a sair daqui ou apenas matou os guardas por diversão.

Shav nos observou do alto por um momento e, com um movimento rápido, lançou uma esfera de chamas contra a própria caverna, que começou a ruir.

- Mas… – protestou Kaera. – Ainda há pessoas lá dentro!

Shav continuou com seu rosto austero. – Não importa. As evidências de minha presença aqui precisam ser apagadas. E nada como um desabamento em The Sorrows para ajudar com isso.

Eu puxei Kaera e Shav, fugindo da caverna desabando. Na superfície, nos encontramos deitados sob a luz do sol carmesim que, pela primeira vez, senti falta de seu calor insuportável.

A mão de Shav pegava fogo, enquanto apontava para Kaera. – Ela também, Erdan. – ele disse. – Você pode ser confiável, mas ela não!

Rapidamente, eu consegui derrubar Kaera, sofrendo o impacto das chamas em mim mesmo. Girando nos tornozelos, eu disparei uma seta contra Shav como reação, que atingiu seu ombro, deixando-o ferido. Kaera se levantou e golpeou Shav com a espada, que apenas içou um escudo de chamas, queimando a mão de Kaera e a impedindo de golpeá-lo.

- Erdan, você não sabe o que está em jogo aqui! – gritou Shav. – O destino de uma cidade inteira depende de meu sucesso! Centenas de vidas estão em jogo, inclusive a minha e talvez a sua!

Levantei-me e o encarei. – Por que você não me explica?

Shav baixou seu escudo. Kaera estava alerta para seus movimentos. Sua boca mexeu, mas as palavras não saíram. Kaera ficou sem entender, mas eu compreendi perfeitamente. A razão, o destino de Balic e Tyr na balança, enquanto eu estava lá tentando salvar apenas uma vida de alguém que não merecia. Uma assassina, uma fugitiva, uma criminosa.

Uma elfa.

Aproximei-me de Kaera. Ela ficou sem entender quando a golpeei no rosto. Caída, desfalecida, ela apenas viu meus pés chutando seu estômago enquanto desmaiava. Olhei de volta para Shav que, com um movimento da cabeça, sabia que eu tinha que fazer aquilo sozinho. Puxei a espada de Kaera e, pondo-a em meus braços, a levei para fora da cidade, onde o sol carmesim se punha e as luas, gloriosas, se levantavam.

Eu fiz o que tinha de ser feito. Para mim, não havia uma escolha, desde o começo.


Uma Hora Depois

Kaera acordou abraçada pelas areias do deserto exterior da grande cidade de Tyr. Eu utilizava um de meus dias de sobrevivência que consegui com Shav para trazê-la de volta a vida. Ela me olhou e, repentinamente, saltou para trás, se preparando para a luta.

- Calma. – falei, oferecendo comida para ela. – Eu entendo que te trair duas vezes no mesmo dia não te deixa confortável ao meu lado.

Ficamos parados, observando um ao outro. Kaera estava observando o ambiente, procurando saídas, armas e algo que pudesse usar contra mim. Eu apenas esperava que ela se rendesse ao cansaço e aceitasse minha proposta. Finalmente, ela se aproximou e puxou a comida, se alimentando como se nunca tivesse comido nada como aquilo em sua vida.

- Por quê?

Sua voz, apesar de obstruída um pouco pela comida, era clara. Eu apenas a observava ali, parada, comendo como um animal faminto.

- Precisa me explicar melhor para que eu possa responder. – retruquei e, sem querer, sorri.

Ela deve ter visto um fantasma, porque nunca tinha antes me visto sorrir. – Por que me salvo? Por que não me matou como seu irmão queria?

- É… complicado. – eu parei e a observei enquanto ela terminava de comer. – Se você fosse de outra espécie, eu não pensaria duas vezes. Mas você é uma elfa. Eu não mato outros elfos, não assim.

Ela riu. – Você é um pior assassino, cafajeste e ordinário que já conheci. Não foi capaz de me matar porque sou uma elfa?

Ela sacou uma faca de suas vestes. Eu não percebi isso e ela avançou com tudo contra mim. Incapaz de me esquivar, ela se debruçou por cima de meu corpo, pressionando a faca de osso contra meu pescoço, cortando-o levemente, os fios de sangue tocando a areia.

- Por que não me diz a verdade dessa vez? – ela falou, enquanto se preparava para me matar.

- Porque você me lembra muito ela… minha esposa.

Ela parou. Ela acreditou. E tirou a faca de meu pescoço, mas com sua força superior me manteve no chão. Não que eu queria me levantar no momento, estava tão cansado que poderia dormir ali mesmo.

- Você é mesmo um cafajeste. – ela provocou. – Não.

Eu pisquei. – Não o quê?

Ela se levantou, guardou a faca e pegou parte de meus suprimentos. Antes de partir, ela sorriu para mim e falou.

- Eu não sou virgem.

Ao vê-la desaparecendo no horizonte, me senti completamente compelido a persegui-la. Mas sabia que se a seguisse, ela provavelmente o mataria. E eu lembrei também da mensagem secreta de Shav. Surreal, loucura e missão suicida era o que vinham a mente, mas eu devia uma a ele.

E quem diabos é Tithian?

Comments

O massa é que no conto anterior, ele que foi estuprado pela humana, hehehe. Mas esse conto foi muito útil pra ver como Erdan é um psicopata frio e sem escrúpulos.

A Fuga de Under-Tyr
jonny333 Caldeira

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