Ascensão do Terceiro

Horrores do Norte

Conto

“Conheça seu inimigo mais do que a si mesmo.”

Sun Tzu

O Sol Carmesim nunca concedeu trégua, mas hoje ele parece que acordou de mau humor. O suor dos homens e mulheres trabalhando em Tyr mal caía ao chão e eu realmente esperava ver a areia das dunas do deserto se transformarem em vidro.

Mas minhas atenções se voltaram para a comida no prato à minha frente. Já estava me acostumando com o dinheiro recebido por Jenna desde o último serviço, quando percebi um enorme meio-gigante se aproximando de mim, tendo ao seu lado um companheiro humano magro, mas bastante tatuado. Fingi não prestar atenção, mas eles cochichavam entre si e o meio-gigante, seguro de si, se aproximou de mim como se estivesse prestes a apertar minha mão.

- Então – disse o meio-gigante – você é o tal Erdan, não? – ele falou, com um sorriso no rosto e uma clava de osso maciça nas costas.

- Sim. – disse o magro, de um jeito totalmente combinado e artificial. – O elfo que acabou com Morn, Karadan e seus grupos. Ouvi histórias sobre você.

Posso ter até tido uma participação no fim de ambos, mas não gosto de me gabar por isso, portanto eles teriam de se contentar com um olhar e um gole de água.

Mas, obviamente, ele não estavam satisfeitos. O meio-gigante puxou uma cadeira, segurou meu braço com sua enorme mão, e sorriu para mim. – Você não parece ser tanta coisa.

Notei que o meio-gigante apertava meu braço, a ponto de esmagá-lo com certa facilidade. O humano, sorrindo sadicamente do lado, apenas observava a dor extraída em meus olhos. Eu resistia ao máximo possível, principalmente porque me contorcer de dor além de ser mais discreto do que gritar também distraía a atenção do meio-gigante de minha faca.

Um urro ensurdecedor preencheu a área de alimentação do Distrito das Caravanas em Tyr. Devo dizer que o golpe com a faca foi quase perfeito, atingindo o pulso e, se ele fosse um humano, teria perdido a mão para sempre.

Quase que imediatamente ele largou meu braço, atordoado pelo inesperado ataque. Sem ter muito o que dizer, peguei o humano pelo braço e falei em seu ouvido. – Saia de meu caminho, imbecil!

Os guardas dos templários se aproximaram e viram a confusão. Simulei minha melhor face, um pouco melhor do que meu sério normal, e esperei pela chegada do templário local, um homem de meia-idade castigado pelo sol, mas com um olhar perspicaz e inteligente.

- O que está acontecendo aqui? – disse ele, em tom de ameaça, enquanto seus soldados nos cercavam.

Falei com minha melhor voz. – Meu amigo aqui se machucou enquanto comia. – disse apontando para o meio-gigante. – Creio que ele não estará empunhando sua clava nem tão cedo.

Antes que pudesse avançar sobre mim, um dos guardas do templário o golpeou com uma marreta, o que o jogou ao chão desacordado. O outro fugiu rapidamente pela multidão no meio da confusão. O templário, claramente inteligente suficiente para ver através de minha péssima mentira, apenas fez um gesto com a mão para que eles baixassem as armas.

- Belo corte, muito preciso. – disse ele, olhando para a mão ensanguentada do meio-gigante. – Ele nunca mais poderá empunhar uma arma, você sabe disso.

Não respondo bem ao óbvio, mas estava falando com um templário, um homem que facilmente poderia me mandar para a escravidão pelo resto da minha vida, então tentei ser educado. – Um golpe de sorte. – desmenti a mim mesmo e fiquei surpreso com isso, pois o templário sabia como me convencer. – Não tive escolha. – tentei corrigir, mas sem sucesso.

- Você é Erdan, eu creio.

- Sim. – respondi novamente o óbvio. – Quem deseja saber?

- Meu nome é Byden, templário. – ele olhou para os guardas e fez um gesto para eles carregarem o meio-gigante dali. – Eu poderia facilmente prendê-lo por distúrbio, Erdan, mas tenho uma proposta melhor para você… algo que não pode recusar em sua situação.

Depois de mestres escravistas, templários são a segunda coisa que mais me irrita nas cidades-estados. Dotados de autoridade concedida pelo Rei-Bruxo, eles podem com um dedo mudar completamente sua vida por apenas um capricho. E eu adoro controlar o meu destino.

Eu e Byden nos dirigimos para um local mais reservado. Para onde íamos eramos cercados por uma multidão. Via a maldade em muitos deles, adorando o sangue escorrendo pelas ruas, enquanto outros se assustavam, e alguns nem ligavam.

Civilização. A terceira coisa que mais odeio.

- Tenho um serviço para o senhor, Erdan. – disse Byden, pedindo uma bebida de kank e sentando-se numa cadeira. Ao contrário de outros templários, ele era bem musculoso e apesar de sua idade, tinha poucas cicatrizes, o que indicava que ele era bem habilidoso em combate.

- Eu quero encontrar uma pessoa. O nome dela é Roslyn e ela foi capturada por traficantes de escravos draconatos há pelo menos dois dias. Ela tentava chegar a Altarur, mas foi interceptada antes.

Fiz com que sim na cabeça e abri a boca, mas ele levantou a mão para que não o fizesse. Ele mostrou o que parecia ser uma mecha de cabelo ruivo e um desenho de Roslyn. Memorizei as feições dela e devolvi o desenho, mas fiquei com a mecha.

- Meus termos então. – falei, finalmente. – Quando eu sou contratado, eu sou pago. Eu trabalho melhor sozinho e se houverem conflitos e despesas, elas deverão ser cobertas. Isso tudo se quiser que esse resgate seja bem-sucedido. Entendido?

Ele sorriu. – Mas… você não entendeu realmente sua participação nisso, não é? – ele coçou o queixo e continuou. – Você não deve resgatar Roslyn, mas escoltar um grupo de mercenários que eu contratei para sua base.

Isso me pegou de surpresa. Realmente, eu não era tão experiente, mas pelo menos sabia me esgueirar e remover alguém de um local sozinho. Mas finalmente entendi o brilho dos olhos de Byden. Eram olhos que ansiavam por sangue e vingança.

- Muito bem. – disse finalmente. – Menos trabalho para mim então.


Esta é a última vez que eu trabalho para uma equipe. Quatro me acompanharam, dois humanos, uma elfa e um mul. O último era o mais quieto, mas um dos humanos, Hiekan, não conseguia manter sua boca fechada. Ele falava desnecessariamente e reclamava de tudo, e ao fim de nossa jornada eu torci para que ele se perdesse no deserto.

Mas eu tinha um serviço. E eu termino meus serviços.

Chegamos aos arredores do acampamento dos draconatos. Eles possuíam uma força considerável, o que me impressionava o fato de Byden ter nos enviado aqui para enviá-los a próxima vida. Mas meu serviço era apenas de escoltá-los na ida e na volta, e meu serviço estava feito.

- Muito bem, Hiekan, Jikon, Kaera e Balk. – disse olhando para o humano e a elfa. – Estarei aqui nos arredores esperando por vocês. Partirei ao nascer do sol amanhã caso não retornem.

Kaera, a única mulher e elfa da equipe, deu uma gargalhada. Sou um elfo bastante conservador, o que me deixava constrangido quando via um ser de minha espécie agindo de forma estranha. – Você realmente nos deixaria aqui? – disse ela. – O que acha que Byden faria quando retornasse para Tyr? Ele arrancaria seus ossos.

- A elfa tem razão. – disse Jikon, arrumando seu arco. – Ou voltamos com a garota, ou não voltamos de jeito nenhum.

Dito aquilo, eles partiram para o conflito naquela noite. Esperei por muito tempo, mesmo depois do amanhecer, então finalmente fique preocupado. Um sentimento que eu não gosto de ter. Verificando o campo, percebi que os tolos tinham sido capturados e estavam sendo torturados pelos draconatos. Balk, o mul, tinha sido o primeiro a cair. Apesar de sua compleição física avantajada, os draconatos pegaram pesado nele, arrancando orelha, olho, dente e outros pedaços que não nos deixam vivos. Provavelmente o torturaram por horas antes dele se render aos ferimentos e cair morto. Isso explicava do por quê os outros ainda estavam vivos.

Os draconatos estavam prestes a enterrá-los em tumbas recém-cavadas, quando minha flecha atravessou o pescoço de um dos répteis. Aproveitando a situação, Hiekan desarmou um segundo, enquanto Jikon saltava no pescoço do terceiro. Kaera buscava uma espada caída e estocava o draconato que Hiekan derrubara com um chute nas pernas, enquanto Jikon quebrava o pescoço do outro.

- Finalmente decidiu aparecer, guia. – falou Kaera, com um sorriso nos lábios. – Pensamos que tinha esquecido de nós.

Apenas desci da duna onde estava escondido e me aproximei. Hiekan ainda me olhava com irritação nos olhos, enquanto Jikon tinha certeza de que os draconatos estavam devidamente mortos.

- Então, o que estamos esperando, vamos sair daqui! – disse Hiekan, preparando-se para partir.

Segurei o ombro dele com firmeza. – Não vamos embora até que o serviço esteja completo.

Hiekan sorriu e escapou de minha mão. – Nunca mais retorno lá. – ele cuspiu um pouco de sangue. – Aqueles draconatos são piores do que as tribos nômades.

Não gostava daquela situação, mas também não gostava do que viria se não terminássemos o serviço. Portanto, puxei meu arco e flecha e apontei para a cabeça de Hiekan. Jikon e Kaera foram espertos o suficiente para se afastar, puxando armas, mas Hiekan foi pego de surpresa e ficou paralisado em minha frente.

- Se eles me atacarem, você morre. – disse olhando fixamente para Hiekan. – Nós recebemos um serviço, e eu irei cumpri-lo, com ou sem vocês.

Por um momento, ficamos lá, parados, esperando a ação do outro. Mas Hiekan finalmente cedeu. – Muito bem. – ele disse. – Vamos terminar esse trabalho. Mas nada mais de flechas apontadas para minha cara, seu filho da puta.


Atacar de frente uma aldeia de draconatos não era a ideia mais inteligente, mas foi o que Hiekan, Jikon, Kaera e Bulk fizeram, ao custo da vida do último. Os draconatos desta tribo eram extremamente brutais, mas de alguma forma, Byden parecia acreditar que Roslyn estava viva.

Quisera ela estar morta.

Após nos infiltrarmos silenciosamente e, com uma ou duas mortes de draconatos depois, resgatamos Roslyn.

Ou o que restou dela.

A mulher, que pelo retrato parecia bastante bonita, estava completamente desfigurada. Seu nariz tinha sido cortado, junto com suas orelhas, lábios, e todos os dentes da boca. A língua tinha sido poupada, mas um olho estava perfurado por uma farpa de madeira. As mãos demonstravam a falta de pelo menos quatro dedos das mãos e nenhum dos pé, e um polegar claramente mastigado. Um seio tinha sido arrancado e costurado. Os draconatos tinham deixado ela ser violentada por alguém por muito tempo, devido aso ferimentos em sua vagina e ânus, mas provavelmente estas pessoas sumiram e eles começaram a se divertir com ela.

A mulher mal conseguia se mover após o resgate e precisou que Jikon e Hiekan a carregassem até o exterior do acampamento. Jikon era habilidoso com ervas e bandagens, e a deixou forte o suficiente para resistir a viagem de volta.

- Minha nossa! – comentou Kaera, enquanto voltávamos para Tyr. – Mas quem seria capaz de fazer uma coisa dessas? – ela olhava com carinho e pena para Roslyn. – Pensava que Bulk tinha sido o único que sofrera desse jeito, pois tinha matado uns membros da aldeia, mas com uma escrava? Isso é completamente novo para mim.

Fiquei silencioso. Hiekan olhava para mim e notou que eu sabia o que eram estas criaturas. – Você sabe de algo, elfo-guia! Conte para nós!

Foi aí que lembrei de um fato há muito tempo atrás, antes mesmo de me tornar um escravo…


- O que houve, Nohan?

Nohan estava lá, sentando ao lado de um corpo completamente mutilado. O jovem, que não tinha mais do que treze anos, tinha tido suas tripas arrancadas enquanto ainda estava vivo. Ela possível notar a expressão de dor e horror que ele tinha em seu rosto. Apesar de homem, seu ânus estava destruído, provavelmente por uma peça rombuda… ou uma criatura enorme.

- Eles estão ficando cada vez mais audaciosos, Erdan. – Nohan se levantou e tocou no meu ombro. – Avise a todos. – ele olhou mais uma vez para o corpo, antes de acenar para outros dois companheiros para incendiarem ele. – Vamos nos mudar agora.

- Mas Nohan, – protestei – acabamos de nos assentar nessa região. Deveríamos durar pelo menos mais um mês por aqui.

Nohan fez a cara de sério que eu sabia que ele estava preocupado com algo. Nohan era o melhor guerreiro da Tribo Shtar e destemido. Mas por um momento pude ver o terror atingir o coração dele, e essa imagem não sumiria nunca da minha memória.

- Preste atenção, Erdan, e preste muito bem. – ele disse, em tom sério, sem tirar os olhos de mim. – Existem certas pessoas… draconatos, humanos, muls, elfos, meio-gigantes… que decidiram um dia explorar o deserto. Essa história é conhecida por muitos, mas a versão que a maioria conhece é que eles morreram na tentativa, e que todos que tentaram segui-los morreram. A versão verdadeira é que a maioria deles testemunhou algo no deserto que os mudou completamente – ele apontou para o cadáver queimando – em criaturas sem mente brutais e com sede de sangue. Eles são conhecidos como Salteadores, e ficam para o norte de Athas, onde vivem brutalizando as tribos locais. Nunca pensei que encontraria um bando deles por aqui: eles estão ficando audaciosos.

Olhei fixamente para Nohan. Não queria acreditar que existia um povo inteiro de criaturas desprovidas de moral. Mas quando vi sua seriedade, apenas pude questionar o óbvio.

- Como sabe disso, Nohan?

Ele olhou para mim. – Apenas três pessoas conseguiram fugir dos Salteadores. Eu, um humano e um anão.


- Como assim, devo sacrificá-la?

Byden estava irritado com minha proposta. Mas Roslyn tinha um corpo, porém quando olhava em seu olho bom, via-se que não havia alma ali. Era certo que, mesmo utilizando magia para curar seus ferimentos, sua mente estava destruída. Algo que tentei explicar, sem sucesso, a Byden.

- É verdade, Byden. – disse Kaera. – Aquela aldeia de draconatos não era nada igual ao que vimos antes.

- Não foi a toa que precisamos fugir dali rapidamente. – disse Jokin.

Aquilo foi a gota d’água para Byden. Ele tinha pedido especificamente para nós obliterarmos a aldeia, e nós não o fizemos. Uma centelha de ódio fugiu de seus olhos e, com um movimento rápido, todos nós estávamos no chão, aturdidos pela magia conjurada. Em questão de momentos estávamos sendo presos por guardas do templário. Enquanto ele segurava uma destruída, porém revitalizada, Roslyn.

- Então, vocês me traíram! Pensaram que poderiam me enganar. Mas não, eu Byden os setencio a escravidão. Melhor: à morte! Teremos uma sessão de tortura antes de que vocês possam partir dessa vida para uma próxima.

Então, finalmente percebi: apesar de brilharem, os olhos de Byden eram quase tão vazios quanto os de Roslyn. Eles tinham passado pela mesma situação, mas ele tinha sofrido menos. Agora, por causa da loucura causada pelos Salteadores, nós estávamos fadados a morte por tortura nas câmaras dos templários.

Retiro o que eu disse. Eu odeio templários mais do que escravistas.

Comments

jonny333 Caldeira

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