Ascensão do Terceiro

O Tesouro Perdido

Conto

“Certamente não há caçada como a caçada humana, e aqueles que já caçaram homens armados e gostaram nunca ligarão para mais nada depois disto.”

Ernest Hemingway

Era metade de um dia mais quente que o normal em Tyr quando eu fui abordado. Eu estava começando a se acostumar com todo tipo de clientes, aqueles que querem apenas recuperar um anel perdido, outros que querem a morte de um comerciante concorrente, e ainda aqueles que querem apenas ajuda em uma viagem para outra cidade ou vila. Mas certamente me surpreendi com a pessoa que estava a minha frente, segurando com imprudência um saco de moedas, enquanto estava eu sentado em meu costumeiro local próximo às tendas do Distrito de Caravanas.

- Senhor Erdan? – uma voz fraca, feminina e jovem demais falou por debaixo dos excessivos mantos que lhe cobriam.

- Sou eu mesmo. Você está procurando algum serviço específico?

A mulher ou garota estava usando roupas pesadas, que cobriam totalmente seu corpo. De alguma forma, naquele calor, ela não tinha desmaiado ou desidratado, então, segurando minhas interjeições de surpresa, apenas esperei momentaneamente para ela responder.

Ela pareceu apreensiva.

- Quero que o senhor me ajude a encontrar alguém. – disse ela, finalmente. – Esta pessoa é muito importante para mim e está desaparecida. Poderia fazer isso?

Quando “desaparecida” soa em meus ouvidos, eu sinceramente não tenho a ínfima esperança de ver pelo menos um corpo, mas estava a quase dois dias sem comer direito e já estava racionando minha água. Fiz a besteira de trocar algumas flechas por uma água barrenta que apenas acelerou meu processo de desidratação e ainda não tinha pessoalmente me vingado do anão que me vendera. Por isso, apenas concordei com a cabeça e os estranhos olhos verdes da garota pareceram brilhar de alegria.

- Então partiremos imediatamente! – ela falou com energia e entusiasmo renovados. – Minhas coisas estão comigo. – ela tateou uma pequena mochila de couro reptiliano.

Coisa que eu detesto nesta vida são a capacidade do cliente achar que pode fazer o meu trabalho. E uma das coisas que meu trabalho normalmente exige é andar silenciosamente e mover-me sem que seja notado.

- Mulher. – disse num tom áspero. – Em trabalhos como esse eu não levo acompanhantes. Eu acho a pessoa e a trago de volta para você, de preferência depois de ter me dado um pagamento inicial.
Ela me estudou com seus grandes olhos verdes. – Senhor Erdan – falou num tom de voz autoritário digno de um templário exigindo seu suborno. – eu não sou residente de Tyr, vim aqui apenas procurar meu querido Morn. E aqui tem moedas suficientes para que o senhor pare com as reclamações.

Num movimento rápido, ela jogou a bolsa de moedas no chão, espalhando algumas moedas na minha frente. Mais do que rapidamente, um rufião tentou pegar algumas, mas apenas levou um soco no estômago e vomitou o que parecia ser uma refeição mal digerida. Após o estúpido sair, eu recolhi as moedas – suficientes para vários dias de sobrevivência, vale comentar – e saí puxando a garota pelo braço da forma mais delicada que conheço. Apesar disso, ela protestou silenciosamente quando a levei para um dos inúmeros becos imundos da periferia de Tyr.

- Mas o que está fazendo, Senhor Erdan? – ela finalmente escapou de minhas garras e protestou. – Eu posso facilmente gritar e um guarda meio-gigante estará aqui.

Apenas tapei a boca dela, pois ela falava alto demais.

- Você terá de ser mais silenciosa se quiser achar Morn. – falei soltando aos poucos a boca dela. Mesmo tão próximo, eu não conseguia discernir nada dela, exceto seus vibrantes olhos. – E terá de chamar bem menos atenção. – falei, apontando para o saco de moedas.

- É o seu pagamento.

- Eu sei.

- Então. – ela cruzou os braços, um pouco desconcertada por sua atitude infantil. – Vai me ajudar a achar Morn?

Não tinha muito a perder. A garota parecia esperta o suficiente para manter-se calada quando ordenada, e muito mais moedas poderiam sair dela caso o serviço se prolongasse. Além disso, tinha uma reputação a zelar… e o Mercado Élfico não ficaria feliz com clientes morrendo após serem assaltados.

- Tudo bem, vamos. Siga-me e não fale nada até eu ordenar. Não faça nenhum barulho e controle sua respiração. Ela está alta demais.

Eu parti, e tudo que pude notar sobre minha contratante era que ela estava tentando respirar o mínimo possível, mas ainda assim de forma barulhenta. “Apenas mais um fardo”, pensei, “mas um fardo que vale água.”


Jenna, como se chamava minha contratante, estava há quase duas semanas atrás de Morn, seu marido. Ele tinha vindo mês passado para Tyr a negócios e deveria ter retornado para casa, mas não ocorreu. Não perguntei, mas achava estranho uma garota com muito dinheiro pedir ajuda a um caçador como eu do que para os templários. Eles fariam um trabalho muito mais espalhafatoso, claro, mas pelo menos teriam mais gente cobrindo a cidade do que um elfo e uma mulher coberta.

Mesmo assim, a palavra nas ruas era que Morn, um humano alto e bastante forte, tinha vindo com seus colegas de sua caravana para Tyr para reabastecer. Seu destino era um vilarejo próximo, talvez Kled, mas não imagino um bando de comerciantes artísticos, segundo Jenna, vendendo para anões endurecidos daquela cidade. Mas minha fome estava superando minha curiosidade e quando conversei com Pellot, um conhecido no Mercado Élfico, sobre onde estaria Morn, ele disse umas coisas interessantes sobre o tal fulano.

Morn tinha vindo até o Mercado Élfico. Apesar de estar bêbado e vulnerável, seus homens o vigiavam como guardiões primais vigiam um oásis, então os batedores de carteira élficos não fizeram nada. Mas Morn tinha um objetivo, o qual Pellot teve o prazer de “escutar sem querer”, segundo o próprio.

- Ele estava atrás de algum tipo de “tesouro”.

Olhei fixamente para Pellot e pensei duas vezes em socá-lo, mas usei meu sarcasmo no lugar. – Tesouro no deserto, certo? Conte-me porque você está me falando isso.

Ele engoliu seco. – Porque a chefia disse que quem fosse atrás do tesouro ia ter de enfrentar Karadan e seus homens. E eu mesmo não queria confusão.

Aquilo simplesmente não me pareceu certo e a surpresa de descobrir que o maldito traidor elfo que deveria estar morto estava vivo fez com que meu queixo caísse por um segundo. Recompondo-me, perguntei o mais sério que conseguia. – Quantos estão com ele?

- Seis, eu acho. Todos novos, nunca vi iguais. Provavelmente de outra cidade.

Pellot era um ladrão, mas ele tinha seus limites. E o medo nos olhos dele indicava que ele estava falando a verdade. Dei algumas moedas para ele, como gratidão, mas pedi para que ele mantivesse a matraca fechada. Para Pellot isso era um feito fenomenal como um golpista barato, mas ele sabia que eu odiava Karadan, e ele também odiava o maldito.

Pellot não tinha uma orelha por causa dele.


A viagem para Kled era rápida, se estivesse sozinho. Por causa de Jenna tive que carregar mais equipamento do que realmente era necessário. Na primeira noite já deveria estar próximo do destino, mas ela sentiu o cansaço vencê-la e finalmente se rendeu.

- Eu manterei guarda. Posso ficar alguns dias sem dormir. Agora descanse que logo partiremos.

A ideia de ficar alguns dias sem dormir não me animava, mas não tinha muita escolha. Pelo menos eu estava aquecido na noite fria de Athas, enquanto as estrelas me faziam companhia, me senti bem novamente. Mas isso durou apenas dois segundos, porque Jenna tinha se encostado em mim.

Confesso que fico surpreso com o comportamento das pessoas, e na maioria das vezes deixo passar, mas desta vez foi demais. Não estava ali para ser travesseiro ou consolo para ninguém. Esta ali para o trabalho. E quando completo o trabalho, eu sou pago.

Mal tínhamos passado o terceiro dia de viagem, quando Jenna acordou no meio do sono. Aquilo foi um aviso para mim também, e em pouco tempo eu estava viu engalfinhado em conflito. Tinha tudo acontecido muito rápido, mas agressores tinham nos descoberto, provavelmente duas pessoas perdidas no deserto. Muito pelo contrário.

Mesmo assim, enfraquecido e desnutrido, eu sucumbi ao ataque dos agressores. Jenna, prestes a sofrer o pobre destino das mulheres, quando iria ter sua roupa removida, foi salva por um homem. Este homem, alto e forte, caía perfeitamente na descrição de Morn.

Não era de surpreender que ele fosse o próprio.

Morn tinha nos rastreado até a pequena gruta que tínhamos nos abrigado. Logo eu estava preso e caminhando em direção a um pequeno vilarejo nômade a oeste de nossa posição. “Oeste”, pensei, “provavelmente um acampamento élfico.”

E, mais uma vez, minha intuição tinha se provado correta. Muitos elfos, meio-elfos e alguns membros de outra raça que estavam realizando negócios estavam no vilarejo. A cena só não ficou perfeita porque todos eles estavam na horizontal, com rastros de sangue e tripas espalhados pela terra rochosa, pintando o local de vermelho.

Foi então que, mais uma vez, minha intuição entendeu o instinto assassino de Morn. Ele era como eu, uma pessoa desprovida de moralidade. Fiquei fascinado.

- Então, Morn. – finalmente reuni forças suficientes para falar. – O tesouro que tinha rastreado não estava aqui, senão não teríamos voltado.

- Ele é bom. – disse Morn, olhando para Jenna, que estava solta, ao seu lado, mas não tinha falado nenhuma palavra desde então. – É por isso que o trouxe aqui, elfo, porque você deve saber onde seu povo esconderia um tesouro destes.

Um de seus guardas soltou minhas amarras e me jogou. Caí de rosto em um peito esburacado por um golpe de martelo, provavelmente. Era uma elfa grávida, e o bebê estava frito pelo sol impiedoso no chão ao seu lado. No desespero, tinha dado a luz ali mesmo. Admirei o seu ato de tentar proteger o filho, demonstrado por um braço envolvido no semi-feto. Mas um segundo golpe no pescoço mostrava o osso aparecendo.

- Ela deu um trabalho. Provavelmente era a vadia do chefe da tribo. – disse Morn.

Elfos normais sentiriam pena, ódio de Morn ou um desejo de vingança. Mas quando olhei para o bebê e a mulher, apenas conseguia pensar em quanto dinheiro conseguiria tirar do tesouro, e como conseguiria sobreviver a Morn.

- Muito bem. – eu disse. – Normalmente os elfos nômades guardam seus tesouros próximos às montanhas. Se tiver algum vivo ainda, eu posso conseguir a informação. Desde que me faça parte de seu grupo, é claro.

Eu vi o olhar de protesto de Jenna, mas antes dela mover a boca, Morn falou. – Muito bem, concordo com seus termos. Temos um vivo, ele estava apenas… recebendo um tratamento especial.

Devo dizer que já fiz algo assim, por isso não posso culpar Morn. Mas Morn não era cauteloso nem conseguia segurar seu instinto assassino. O elfo estava preso, fritando ao sol, com as pálpebras e orelhas cortadas. Já cego e quase enlouquecido pela dor, ele estava balbuciando uma antiga cantiga élfica, errando todos os seus versos. Uma verdadeira falta de necessidade. Meu primeiro pensamento foi acabar com a vida daquele miserável, mas eu precisava das respostas.

Com alguns minutos de tortura e interrogatório, consegui tirar de Dalyn, ou qualquer que seja seu nome, a localização do tesouro. Felizmente eles me deixaram cortar o pescoço do maldito antes de partirmos até as montanhas. Jenna estava cada vez mais desapontada comigo, mas ainda assim, me olhava com certo respeito.


Nas montanhas, pude ouvir o som de perseguidores. Era Karadan e seu bando, que estavam nos caçando há dias. Morn tinha os percebido apenas no dia anterior, o que me deixou desapontado, pois tinha grande admiração por sua indelicadeza.

- Eles provavelmente nos emboscarão à noite de hoje. – eu disse. – Portanto, é melhor deixar os homens preparados.

Com uma palavra, os homens de Morn se reagruparam de modo quase militar. O que me levou a pergunta: ele era muito bem educado e sabia de muitas coisas, então seria ele um ex-templário? Ao que tudo indica, sim.

Mas a emboscada, apesar dos preparativos, apenas serviram como distração. Pois Karadan e alguns de seus elfos investiram diretamente contra os homens de Morn, pegando-os de surpresa. Morn, em si, percebeu que não poderia vencer e fugiu. Jenna foi atingida no joelho por uma flecha, então fui lá buscá-la.

- Minha perna! – ela urrou. – Remove a flecha, logo!

A flecha tinha fraturado o osso e expandido a rótula. Se eu removesse, ela talvez sangrasse até a morte. – É melhor amputar. Você terá mais chances dessa forma.

- Não! – ela gritou. – Não tire minha perna de mim!

Os olhos dela eram de uma determinação indomável. Por um momento vacilei, pois nunca tinha visto tal determinação antes. Entretanto, uma flecha passando perto de minha orelha me trouxe de volta ao mundo dos vivos e alertas, então quebrei a flecha e, colocando-a nas costas junto com nossas coisas, parti para o meio do deserto.

Não sei como terminou o conflito Karadan versus Morn, mas sabia que estava a quase cinco dias sem dormir, cansado e morrendo de fome, além de estar carregando meu fardo nas costas, Jenna. Após algumas horas de caminhada, pude jurar que vi um oásis, mas logo pensei em miragem, até que me toquei que ainda era noite.

Corri rapidamente para o local florestado e me pus a tomar sua água. Um descanso bem-merecido após dias de trabalho duro. Mas antes de desmaiar em sonhos profundo, tive certeza de garantir que estávamos sozinhos e que Jenna estava viva.

Ela tinha perdido bastante sangue, mas Jenna era mais resistente que eu poderia imaginar. Após fazer uma bandagem em si mesma, milagrosamente ela estava de pé, apoiando-se com uma vara. Ou ela era uma exímia médica, ou tinha algum poder que eu não percebi. Ainda assim, eu não estava nem um pouco interessado e dormi.

Tive um sono sem sonhos e, quando acordei, Jenna não estava ao meu lado. Perfeito, meu pagamento tinha fugido ou sido sequestrada. Mas quando voltei a mim, ela estava se banhando no lago.

Devo admitir que, em questão de beleza estética, Jenna estava muito acima da média. E quando digo muito, quero dizer que ela foi a criatura do sexo feminino mais bonita que já vi. Até meu queixo caiu. É sério.

Quando ela percebeu que estava sendo observada, tratou de se cobrir e retornar a seu velho modo “encoberto”. Entretanto, desta vez, deixou o rosto à mostra, algo que com certeza era novidade.

- Pois você é mais safado que imaginava, Erdan. – ela sorriu, enquanto seu rosto se aproximava do meu. Ainda sentado na terra fofa do oásis, ela sentou sobre mim, forçando-me a deitar e jogando seu corpo por cima do meu.

Devo admitir, fiquei intimidado com a situação. – Deixe-me agradecer de um modo especial por ter salvo minha vida.

É a mais pura verdade. Quando eu digo que as pessoas agem estranho, eu não estou brincando.


Mesmo após eu e Jenna nos tornarmos “mais íntimos” num oásis temporário, eu tinha um serviço a cumprir. E como sempre, tenho de manter minha reputação.

Pois após nos recuperarmos, fomos até o local da briga e encontramos vários cadáveres, mas sem Karadan e Morn. Jenna, já com o rosto novamente coberto, ficou entristecida. Ela segurou meu braço, na clara intenção de que estava emocionalmente ligada a mim, algo que eu não retribuí, então soltou um gemido, que parecia mais de raiva do que de angústia.

- Ele deve estar no local do tesouro.

O óbvio, como sempre, bate na cabeça das pessoas. Então para o local do tesouro nós fomos. Lá nos encontramos Karadan e mais dois guardas do lado de fora da gruta indicada pelo elfo moribundo. Provavelmente Morn estava lá dentro esperando que eles caíssem numa armadilha.

- Saia já daí, seu cão. – disse Karadan, bravejando enquanto tremia o pano que cobria seu olho perdido. – Saia e terá uma morte rápida e limpa.

Não gosto dos clichês das histórias contadas pelos bardos, mas chamei a atenção de Karadan após derrubar seus capangas. De arco abaixado, nós dois finalmente nos observamos.

- Você por aqui? – exclamou Karadan.

O óbvio novamente, lembram? – Você está perdendo seu tempo, Karadan. Isso provavelmente é apenas um vaso de flores dos restos mortais de um antepassado dele. Não existem tesouros élficos. Você, mais do que ninguém, deveria saber disso.

O ódio cresceu no rosto de Karadan. – Seu filho de uma puta! Você não sabe pelo que eu fui forçado a passar para entregar a Tribo Shtar. Eles eram meu povo também! E você tenta me assassinar com uma flecha no olho e depois se gaba de ter uma moralidade maior que a minha.

Eu não tinha moralidade. – Pois eu acho que devemos comprovar isso agora, não?

Após alguns segundos de silêncio, eu pude escutar a respiração pesada de Jenna atrás de mim. Não precisei me virar – e seria estupidez nesta hora – para saber que seus olhos estavam cheios de lágrimas. Mulheres ficam tão sentimentais nestes momentos.

Não demorou muito para que o mais rápido agisse. Levei uma flechada no ombro, mas, para o azar de Karadan, meu alvo foi seu outro olho. Gemendo de dor, ele só conseguia me amaldiçoar de formas duplas e triplas.

Morn, vendo o pior passar, apenas saiu e ao ver a flecha penetrando meu ombro, se sentiu melhor ainda. – Querida! Você me trouxe alegria trazendo o elfo para mim.

Foi então que tudo se encaixou, como aqueles quebra-cabeças de cerâmica que os anões fazem para as crianças ricas e nobres. Morn sabia que era uma tribo élfica que detinha o tesouro, mas não podia contar com ninguém, exceto um elfo que não fosse da tribo, para rastrear o local. Foi por isso que ele foi para o Mercado Élfico, mas quando não conseguiu nada, ele enviou sua concubina, Jenna, contratar um elfo que não fazia parte do Mercado.

Ou seja, eu era um erdlu para o abate.

- Agora, minha querida, vamos embora. – ele carregava uma urna consigo. – Os elfos queriam que nós acreditássemos que fosse apenas uma urna, mas dentro dela tem algo muito mais valioso.

Num movimento rápido, Morn chutou meu peito, e caí de costas para o chão. Ele puxou sua espada para desferir o golpe final, mas rolei para o lado, quebrando a flecha no meu ombro e arrancando um urro de dor meu. Morn tentava me acertar, mas eu era bem mais ágil que ele. Mesmo assim, estava sangrando e ferido, enquanto Jenna, com seu rosto descoberto, apenas observava a luta.

O movimento de espada de Morn foi rápido o suficiente para que ele cortasse meu abdômen e eu caísse de joelhos em frente a ele. Eu já tinha visto – e até participado – de cenas como estas. Provavelmente minha última visão seria de meus joelhos contra as pedras, enquanto meu corpo caía sem a cabeça presa pelo pescoço.

Sempre fui independente e nunca esperei nada de outros, mesmo quando era criança, mas neste momento eu me senti muito bem quando Jenna decidiu que Morn esta prestes a me matar e enfiou a espada de Karadan em suas costas. Morn já estava ferido e não conseguiu suportar a dor de trinta centímetros atravessando suas costelas e perfurando seu pulmão. Mas eu não podia arriscar. A ideia foi sem refinamento, mas funcionou. Duas pedradas no crânio de Morn e eu estava contando os miolos espalhados pela pedra no chão.

Após remover a flecha do ombro, Jenna me abraçou forte com lágrimas nos olhos. Aquilo doeu muito, mas pareceu errado empurrá-la, portando dei tapinhas nas costas dela e disse que ia ficar bem.

O conteúdo da Urna era de pedras preciosas e alguns objetos de metal… extremamente raros por Athas. Mas minha intuição estava errada na primeira vez que deduzi o plano de Morn, pois não era o plano de Morn, e sim de Jenna que tinha funcionado.

Jenna nada mais era do que uma mercadora que tinha sido escravizada e possuía poderes mágicos. Nunca fui fã de magia, mas ela é bastante eficiente quando bem utilizada. Com algum senso de moral ainda vivo nela, ela deixou o dinheiro comigo, com um bônus de um beijo longo que deixou meu corpo entorpecido. Eu dormi novamente, enquanto ela me colocava carinhosamente no chão, dizia algo sobre amor, necessidade de ir, objetivo maior e depois partiu. Foi a última vez que vi Jenna.

Quando levantei, até o próprio Karadan tinha desaparecido. O coitado, sem olhos, não sobreviveria algumas horas no deserto. Sem pestanejar, peguei meu dinheiro e parti para Tyr. Destino ou acaso, Jenna foi a primeira maga dos Preservadores que conheci. Nunca mais vi mais um deles.

Comments

jonny333 Caldeira

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