Ascensão do Terceiro

Os Impuros

Conto

“O Inimigo de Meu Inimigo é Meu Amigo.”

Provérbio Árabe

- O que pensa que está fazendo?

Faziam algumas semanas desde que tinha escapado de Under-Tyr. Aparentemente, o templário Byden e sua queria irmã Roslyn estavam ocupados demais chorando no ombro do outro para tentar descobrir o que aconteceu em The Sorrows. Além disso, o tal Thitian, seja lá quem for, aparentemente empalou Kalak com uma lança, provando que os Reis-Feiticeiros eram mortais e podiam ser derrotados.

Conversa fiada? Pois é, nada disso. A mais pura verdade. O caos que se seguiu, cada um querendo um pedaço da Torre Dourada, porém Thitian se declarou rei e agora os escravos estão livres.

Gostaria de acreditar que Vanya estava finalmente livre de seus problemas. Mas foram tantos anos que se passaram desde que a vi, pela última vez, grávida de seu mestre. Lembro-me bem de sua expressão de alívio, ao saber que daria luz a um filho importante, que sobreviveria mais um tempo.

Ela estava certa. Não podemos nos dar por vencidos. Não é o estilo dos Shtar.

- Eu perguntei, elfo maldito, o que está fazendo?

O anão ao meu lado apenas gritava em meu ouvido para que eu levantasse. Infelizmente, eu tinha acabado de esvaziar uma garrafa de aguardente e devo admitir que não sou forte para bebidas. Senti o gosto de meu próprio vômito tocando a face, enquanto deitava sobre a mesa da taverna do pequeno careca. Ele, mais do que irritado, estava prestes a me esfaquear e roubar todo meu dinheiro. Ou será que ele estava para me abraçar? Não tenho mais certeza de nada, apenas que meu corpo esta se levantando sozinho e que mais líquidos nojentos são expelidos pela minha boca.

- Caia fora daqui, seu imundo! Não quero te ver mais por aqui!

Tentei esboçar uma resposta, porém minhas pernas não eram muito firmes e o chão parecia mais longe do que era. Tropeçando aos poucos, tentei chegar ao outro lado da calçada, sempre atento a quem tentasse me roubar. Mas depois de um tento fazendo esforço, apenas deitei em plena rua, onde o sol cruel assou minhas costas até o outro dia amanhecer.

- Senhor? – disse uma voz feminina do outro lado de onde estava minha atenção. – Está tudo bem? Você morreu?

Consegui me levantar, apenas para descobrir que estava sujo de areia, lama, vômito e outros líquidos que não prestei atenção. – Garota, você não pergunta se uma pessoa está morta… ela está ou não.

Percebi que a ressaca era a pior parte de um dia inteiro bebendo. Mas eu estava a comemorar… algo… que não lembro mais. Por que diabos fiquei bêbado, para ser sincero?

A garota percebeu minha confusão e, após um minuto tentando encontrar algo na cabeça que não doesse e pensasse, eu desisti. Vendo minha frustração, ela apontou o óbvio.

- Senhor elfo. – ela falou, com sua voz doce de adolescente. – Você foi roubado e atropelado por um mul.

Fazia todo sentido agora o porque minhas costas estavam doloridas. Muls podiam não ser tão altos quanto meio-gigantes, mas os malditos eram pesados. – Então… você pode indicar a direção do ladrão?

Ela fez que não com a cabeça. Era inútil, afinal, ela própria podia ter me roubado e, sem um tostão, comecei a caminhar.

- Ah, senhor, para onde vai? – a garota insistiu, mais uma vez.

- Não sei, para um lugar longe dessa sujeira…

A garota segurou meu braço e com um olhar assassino eu a assustei. Mas isso não adiantou muito, porque um reflexo do sol queimou meus olhos e logo perdi minha pose de matador, enquanto ela ria quando procurava abrigo.

- Por que não fica conosco? – disse a garota. – Temos comida e podemos limpá-lo se desejar…

Percebi do que se tratava e logo recusei. – Desculpe, garota. Mas estou quebrado e também não sou um doente que busca sexo com crianças… principalmente humanas.

Os olhos dela se abriram e por um momento esquecei de ruborizar. – Não, senhor. Não é isso. Queremos apenas ajudá-lo, sabe, pelo que fez por nós.

O que diabos eu fiz enquanto estava bêbado?


Uma hora depois

Não sou de recusar ajuda, banho e descanso gratuito, portanto aceitei. A garota, Enny, entrou de repente enquanto banhava-me e quando percebeu virou de costas envergonhada.

- O que deseja, garota?

Ela me trouxe algo para vestir. Minhas roupas estavam destruídas, rasgadas de inúmeros conflitos, alguns que eu nem recordava mais. Ela me entregava algo do meu tamanho, algo notável, afinal nos encontramos apenas recentemente… eu acho.

- O senhor deseja mais alguma coisa?

Terminei de me vestir. – Você não é exatamente humana, certo?

Ela se virou e percebi, agora sóbrio, mais detalhes de seu rosto. Olhos largos e brilhantes, cabelos esvoaçantes mesmo com todo o sol e as orelhas…

- Sim. – ela interrompeu minha checagem. – Eu não sou “exatamente humana”.

Seu tom havia mudado de garota inocente para adolescente irritada. – Então, o que uma meio-elfa está esperando de mim?

Ela riu e depois baixou o rosto. – Não foi como me chamou da primeira vez. – ela me olhou agora, com olhos lacrimejando, enquanto escondia seu ódio profundo em sua natureza. – “Impuros”. – ela concluiu. – Você nos chamou de “Os Impuros”.

- Como assim, vocês?

Em questão de segundos, o quarto estava cheio de crianças e jovens adolescentes. Eles entravam e mexiam em tudo, brincando com minha roupa antiga e me observando, esperando que eu fizesse algo. Enny ficava ali apenas, esperando minha reação, que claramente era a surpresa.

- Olá, senhor elfo!

Ouvir as crianças falar comigo com tanta alegria e intimidade me impressionou, quase desnorteou. Aparentemente, Enny era a mais velha e líder do bando de pirralhos.

- Quem é você? – perguntei. – O que eu fiz para vocês?

Enny removeu as crianças e se sentou ao meu lado. Ela tentava fazer uma bandagem de um ferimento que tinha nas costas, várias chicotadas que tinha sofrido, enquanto me explicava o que ocorria.

- Nós somos os Impuros. – ela disse, agora calma. – Somos as crianças que foram abandonadas, rejeitadas. Decidimos viver nossa vida sozinhos, longe dos adultos, sem qualquer interferência. Eles só querem nosso mal.

- Você não sabe disso.

- O quê?

- O que é o mal, o que é ser mal. – eu respondi, enquanto me levantava para partir. – Você ainda não viveu suficiente para ver a verdadeira maldade, a crueldade do mundo. Vocês são apenas um bando de crianças irritadas com algo que nem compreendem.

Enny não se controlou. Ela pulou em minha direção e, com um movimento rápido, tentando me golpear no estômago. Antes disso consegui segurar sua mão, girando seu pulso enquanto ela se debatia de dor.

- Você tem uma força e velocidade impressionantes, mas ainda é uma garota. – larguei, deixando-a no chão. – Parece até que foi treinada…

Quando me virei, percebi que várias crianças apontavam pequenos arcos com flechas de osso para mim. – Sim. – disse Enny. – Você nos treinou.


Alguns minutos depois

- Quer dizer que eu estava preparando vocês para enfrentar o quê? Um aristocrata?

- Um templário, pra ser mais exato. – disse Enny. – Ele é um dos que ficaram do lado de Kalak na Rebelião e quer vender as meninas como prostitutas e os meninos como escravos…

Pensando bem, até que os Impuros possuem uma força de trabalho grande. Se o templário os capturassem, ele lucraria muito, até suficiente para escapar de Tyr com grande fortuna.

- …mas nós contratamos você, então nos ensinou a lutar para enfrentar o grupo dele. Quando você desapareceu, pensamos que estava morto, mas eu consegui encontrá-lo hoje, o que foi um milagre!

- Eu não me lembro de nada disso. – respondi, determinado. – Se vocês me contrataram, tudo bem! Eu sempre termino um serviço. Agora como podem provar?

Enny abriu um sorriso e tirou escondida em seu vestido a única coisa que não podia ser falsificado ou irreconhecido.

- Muito bem. – falei. – Quando o inimigo chega?


Cinco horas depois

Estava preparado desta vez. Analisando o movimento do inimigo, percebi que ele se dirigia em direção aos casebres dos Impuros e logo estariam lá, armados e preparados.

- Quem matar aquela vadiazinha pode estuprar de graça!

As palavras de seu líder, o templário Byden, eram incentivadoras e os soldados, doze deles, se moviam rapidamente. Seus soldados estavam em boa forma, apesar de alguns ainda feridos da Rebelião. A população local via o movimento e sabia do que se tratava: o último dia dos Impuros, quando as crianças revoltosas cairiam perante as autoridades.

Eles não faziam a menor ideia com quem lidavam.

Antes que pudessem chegar ao casebre, litros de óleo foram lançados nas primeiras linhas de casas superiores. Pegos de surpresa pelo fogo, os soldados se dispersaram, apenas para encontrar crianças com armas pequenas, que pareciam brinquedo, mas afiadas como as verdadeiras. Com velocidade e aproveitando seu pequeno tamanho, os Impuros passavam pelos confusos soldados que, incapazes de ver através do fogo e da poeira levantada, eram golpeados repetidamente por pequenas, mas dolorosas lanças e facas de osso.

Antes que pudessem se preparar para uma reação, uma chuva de flechas atingiu os soldados de Byden. O próprio templário sobreviveu por um milagre, pois um dos disparos atingiu um de seus soldados ao invés dele. Com sua clara brutalidade, Byden intimidou mais seus soldados do que os parcos ataques dos Impuros, forçando-os a um contra-ataque, atingindo várias crianças que caíam mortas.

Então chegava minha hora. Mais rápido e forte que as crianças, eu atingia meus oponentes com mais precisão e minha tática de terror começou a afetá-los. Aos poucos seus números iam diminuindo e eles nem sabiam ainda com quem estavam lidando. Desvencilhando de seus guardas, consegui ficar frente a frente com Byden, enquanto os Impuros distraíam seus capangas.

- Você! – gritou Byden. – Sabia que o encontraria de novo!

Fiz cara de surpreso, pois ainda não estava muito ciente do que estava acontecendo.

- Então… – Byden percebeu minha hesitação. – meu poder ainda está afetando sua memória não? – ele riu, enquanto puxava sua espada. – Você não é o primeiro a sofrer minhas famosas “lavagens cerebrais”, mas aparentemente conseguiu impedir seus efeitos com… bebida? Gostaria de saber quem lhe contou sobre isso.

Eu também. Na verdade eu tinha um milhão de perguntas agora, mas com pouco tempo, afinal a espada de Byden parecia maior a cada passo que dava, por isso tinha que filtrar um pouco minhas dúvidas.

- Como encontrou isso?

Ele viu o item que tinha tanto apreço: um brinco de metal, finamente trabalhado, que tinha encontrado em uma de nossas mudanças. Entreguei este brinco para Vanya quando me casei com ela e, conhecendo minha antiga esposa, ela provavelmente a guardou com sua própria vida, o que significava…

- Sabe, todos nós temos pontos fracos e o seu é o próprio passado! – ele me golpeou com a espada. Rapidamente puxei minha e bloqueei, mas ele era superior fisicamente e me empurrou para trás. – Você é apenas um peão neste jogo, elfo! Não pode vencer forças superiores às suas.

- Não preciso te vencer. – respondi. – Apenas te atrasar.

Byden percebeu então. O combate havia acabado. Seus homens tinham fugido ou morrido na luta e ele estava cercado por um bando de crianças que uma vez tinha considerado um bem de troca. Agora eles eram guerreiros e estavam prestes a dar cabo dele.

Enny estava lá e me aproximei dela. Dei a ela meu arco, já estava forte suficiente para usá-lo e apontou para a garganta de Byden. Ela sorriu e, baixando o arco, gritou para seu inimigo:

- Nunca mais apareça aqui, cão! – as crianças riram, irritando ainda mais Byden. – Ou vamos fazer você comer a própria merda que faz!

Byden, frustrado, aproveitou a chance de sair intacto e partiu. O ato não me entrou na cabeça e fiquei claramente indignado com aquilo.

- Enny, que porra você fez? – tomei meu arco da mão dela, mas Byden já tinha sumido nas ruas. – Você o deixou vivo! Ele voltará, com mais homens, e agora fará disso uma questão pessoal!

Ela olhou para mim. – Não vou me tornar uma assassina de templários. Ele provavelmente vai ter que fugir da capital ou o novo Rei vai acabar com ele. Além disso, não te contratei para me dar conselhos, mas para me ajudar a lutar.

Ainda não compreendi a misericórdia de um inimigo que provavelmente voltaria para se vingar, mas deixei tudo quieto. O que Byden falou sobre a pessoa que me ensinou como impedir sua alteração mental era mais um mistério que tinha de resolver. Estava pronto para sair quando Enny me abraçou de forma bem constrangedora.

- Obrigada, senhor elfo. – ela disse sorrindo, como da primeira vez que a encontrei. – Engraçado, eu nunca soube seu nome.

Como forma de socializar, algo que detestava, pus a mão na cabeça de Enny e a afaguei. – Erdan. Meu nome é Erdan.

- Obrigada… Erdan.

Próxima parada, taverna daquele maldito anão.

Dedicado à Jorge Amado.

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jonny333 Caldeira

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