Ascensão do Terceiro

Os Impuros
Conto

“O Inimigo de Meu Inimigo é Meu Amigo.”

Provérbio Árabe

- O que pensa que está fazendo?

Faziam algumas semanas desde que tinha escapado de Under-Tyr. Aparentemente, o templário Byden e sua queria irmã Roslyn estavam ocupados demais chorando no ombro do outro para tentar descobrir o que aconteceu em The Sorrows. Além disso, o tal Thitian, seja lá quem for, aparentemente empalou Kalak com uma lança, provando que os Reis-Feiticeiros eram mortais e podiam ser derrotados.

Conversa fiada? Pois é, nada disso. A mais pura verdade. O caos que se seguiu, cada um querendo um pedaço da Torre Dourada, porém Thitian se declarou rei e agora os escravos estão livres.

Gostaria de acreditar que Vanya estava finalmente livre de seus problemas. Mas foram tantos anos que se passaram desde que a vi, pela última vez, grávida de seu mestre. Lembro-me bem de sua expressão de alívio, ao saber que daria luz a um filho importante, que sobreviveria mais um tempo.

Ela estava certa. Não podemos nos dar por vencidos. Não é o estilo dos Shtar.

- Eu perguntei, elfo maldito, o que está fazendo?

O anão ao meu lado apenas gritava em meu ouvido para que eu levantasse. Infelizmente, eu tinha acabado de esvaziar uma garrafa de aguardente e devo admitir que não sou forte para bebidas. Senti o gosto de meu próprio vômito tocando a face, enquanto deitava sobre a mesa da taverna do pequeno careca. Ele, mais do que irritado, estava prestes a me esfaquear e roubar todo meu dinheiro. Ou será que ele estava para me abraçar? Não tenho mais certeza de nada, apenas que meu corpo esta se levantando sozinho e que mais líquidos nojentos são expelidos pela minha boca.

- Caia fora daqui, seu imundo! Não quero te ver mais por aqui!

Tentei esboçar uma resposta, porém minhas pernas não eram muito firmes e o chão parecia mais longe do que era. Tropeçando aos poucos, tentei chegar ao outro lado da calçada, sempre atento a quem tentasse me roubar. Mas depois de um tento fazendo esforço, apenas deitei em plena rua, onde o sol cruel assou minhas costas até o outro dia amanhecer.

- Senhor? – disse uma voz feminina do outro lado de onde estava minha atenção. – Está tudo bem? Você morreu?

Consegui me levantar, apenas para descobrir que estava sujo de areia, lama, vômito e outros líquidos que não prestei atenção. – Garota, você não pergunta se uma pessoa está morta… ela está ou não.

Percebi que a ressaca era a pior parte de um dia inteiro bebendo. Mas eu estava a comemorar… algo… que não lembro mais. Por que diabos fiquei bêbado, para ser sincero?

A garota percebeu minha confusão e, após um minuto tentando encontrar algo na cabeça que não doesse e pensasse, eu desisti. Vendo minha frustração, ela apontou o óbvio.

- Senhor elfo. – ela falou, com sua voz doce de adolescente. – Você foi roubado e atropelado por um mul.

Fazia todo sentido agora o porque minhas costas estavam doloridas. Muls podiam não ser tão altos quanto meio-gigantes, mas os malditos eram pesados. – Então… você pode indicar a direção do ladrão?

Ela fez que não com a cabeça. Era inútil, afinal, ela própria podia ter me roubado e, sem um tostão, comecei a caminhar.

- Ah, senhor, para onde vai? – a garota insistiu, mais uma vez.

- Não sei, para um lugar longe dessa sujeira…

A garota segurou meu braço e com um olhar assassino eu a assustei. Mas isso não adiantou muito, porque um reflexo do sol queimou meus olhos e logo perdi minha pose de matador, enquanto ela ria quando procurava abrigo.

- Por que não fica conosco? – disse a garota. – Temos comida e podemos limpá-lo se desejar…

Percebi do que se tratava e logo recusei. – Desculpe, garota. Mas estou quebrado e também não sou um doente que busca sexo com crianças… principalmente humanas.

Os olhos dela se abriram e por um momento esquecei de ruborizar. – Não, senhor. Não é isso. Queremos apenas ajudá-lo, sabe, pelo que fez por nós.

O que diabos eu fiz enquanto estava bêbado?


Uma hora depois

Não sou de recusar ajuda, banho e descanso gratuito, portanto aceitei. A garota, Enny, entrou de repente enquanto banhava-me e quando percebeu virou de costas envergonhada.

- O que deseja, garota?

Ela me trouxe algo para vestir. Minhas roupas estavam destruídas, rasgadas de inúmeros conflitos, alguns que eu nem recordava mais. Ela me entregava algo do meu tamanho, algo notável, afinal nos encontramos apenas recentemente… eu acho.

- O senhor deseja mais alguma coisa?

Terminei de me vestir. – Você não é exatamente humana, certo?

Ela se virou e percebi, agora sóbrio, mais detalhes de seu rosto. Olhos largos e brilhantes, cabelos esvoaçantes mesmo com todo o sol e as orelhas…

- Sim. – ela interrompeu minha checagem. – Eu não sou “exatamente humana”.

Seu tom havia mudado de garota inocente para adolescente irritada. – Então, o que uma meio-elfa está esperando de mim?

Ela riu e depois baixou o rosto. – Não foi como me chamou da primeira vez. – ela me olhou agora, com olhos lacrimejando, enquanto escondia seu ódio profundo em sua natureza. – “Impuros”. – ela concluiu. – Você nos chamou de “Os Impuros”.

- Como assim, vocês?

Em questão de segundos, o quarto estava cheio de crianças e jovens adolescentes. Eles entravam e mexiam em tudo, brincando com minha roupa antiga e me observando, esperando que eu fizesse algo. Enny ficava ali apenas, esperando minha reação, que claramente era a surpresa.

- Olá, senhor elfo!

Ouvir as crianças falar comigo com tanta alegria e intimidade me impressionou, quase desnorteou. Aparentemente, Enny era a mais velha e líder do bando de pirralhos.

- Quem é você? – perguntei. – O que eu fiz para vocês?

Enny removeu as crianças e se sentou ao meu lado. Ela tentava fazer uma bandagem de um ferimento que tinha nas costas, várias chicotadas que tinha sofrido, enquanto me explicava o que ocorria.

- Nós somos os Impuros. – ela disse, agora calma. – Somos as crianças que foram abandonadas, rejeitadas. Decidimos viver nossa vida sozinhos, longe dos adultos, sem qualquer interferência. Eles só querem nosso mal.

- Você não sabe disso.

- O quê?

- O que é o mal, o que é ser mal. – eu respondi, enquanto me levantava para partir. – Você ainda não viveu suficiente para ver a verdadeira maldade, a crueldade do mundo. Vocês são apenas um bando de crianças irritadas com algo que nem compreendem.

Enny não se controlou. Ela pulou em minha direção e, com um movimento rápido, tentando me golpear no estômago. Antes disso consegui segurar sua mão, girando seu pulso enquanto ela se debatia de dor.

- Você tem uma força e velocidade impressionantes, mas ainda é uma garota. – larguei, deixando-a no chão. – Parece até que foi treinada…

Quando me virei, percebi que várias crianças apontavam pequenos arcos com flechas de osso para mim. – Sim. – disse Enny. – Você nos treinou.


Alguns minutos depois

- Quer dizer que eu estava preparando vocês para enfrentar o quê? Um aristocrata?

- Um templário, pra ser mais exato. – disse Enny. – Ele é um dos que ficaram do lado de Kalak na Rebelião e quer vender as meninas como prostitutas e os meninos como escravos…

Pensando bem, até que os Impuros possuem uma força de trabalho grande. Se o templário os capturassem, ele lucraria muito, até suficiente para escapar de Tyr com grande fortuna.

- …mas nós contratamos você, então nos ensinou a lutar para enfrentar o grupo dele. Quando você desapareceu, pensamos que estava morto, mas eu consegui encontrá-lo hoje, o que foi um milagre!

- Eu não me lembro de nada disso. – respondi, determinado. – Se vocês me contrataram, tudo bem! Eu sempre termino um serviço. Agora como podem provar?

Enny abriu um sorriso e tirou escondida em seu vestido a única coisa que não podia ser falsificado ou irreconhecido.

- Muito bem. – falei. – Quando o inimigo chega?


Cinco horas depois

Estava preparado desta vez. Analisando o movimento do inimigo, percebi que ele se dirigia em direção aos casebres dos Impuros e logo estariam lá, armados e preparados.

- Quem matar aquela vadiazinha pode estuprar de graça!

As palavras de seu líder, o templário Byden, eram incentivadoras e os soldados, doze deles, se moviam rapidamente. Seus soldados estavam em boa forma, apesar de alguns ainda feridos da Rebelião. A população local via o movimento e sabia do que se tratava: o último dia dos Impuros, quando as crianças revoltosas cairiam perante as autoridades.

Eles não faziam a menor ideia com quem lidavam.

Antes que pudessem chegar ao casebre, litros de óleo foram lançados nas primeiras linhas de casas superiores. Pegos de surpresa pelo fogo, os soldados se dispersaram, apenas para encontrar crianças com armas pequenas, que pareciam brinquedo, mas afiadas como as verdadeiras. Com velocidade e aproveitando seu pequeno tamanho, os Impuros passavam pelos confusos soldados que, incapazes de ver através do fogo e da poeira levantada, eram golpeados repetidamente por pequenas, mas dolorosas lanças e facas de osso.

Antes que pudessem se preparar para uma reação, uma chuva de flechas atingiu os soldados de Byden. O próprio templário sobreviveu por um milagre, pois um dos disparos atingiu um de seus soldados ao invés dele. Com sua clara brutalidade, Byden intimidou mais seus soldados do que os parcos ataques dos Impuros, forçando-os a um contra-ataque, atingindo várias crianças que caíam mortas.

Então chegava minha hora. Mais rápido e forte que as crianças, eu atingia meus oponentes com mais precisão e minha tática de terror começou a afetá-los. Aos poucos seus números iam diminuindo e eles nem sabiam ainda com quem estavam lidando. Desvencilhando de seus guardas, consegui ficar frente a frente com Byden, enquanto os Impuros distraíam seus capangas.

- Você! – gritou Byden. – Sabia que o encontraria de novo!

Fiz cara de surpreso, pois ainda não estava muito ciente do que estava acontecendo.

- Então… – Byden percebeu minha hesitação. – meu poder ainda está afetando sua memória não? – ele riu, enquanto puxava sua espada. – Você não é o primeiro a sofrer minhas famosas “lavagens cerebrais”, mas aparentemente conseguiu impedir seus efeitos com… bebida? Gostaria de saber quem lhe contou sobre isso.

Eu também. Na verdade eu tinha um milhão de perguntas agora, mas com pouco tempo, afinal a espada de Byden parecia maior a cada passo que dava, por isso tinha que filtrar um pouco minhas dúvidas.

- Como encontrou isso?

Ele viu o item que tinha tanto apreço: um brinco de metal, finamente trabalhado, que tinha encontrado em uma de nossas mudanças. Entreguei este brinco para Vanya quando me casei com ela e, conhecendo minha antiga esposa, ela provavelmente a guardou com sua própria vida, o que significava…

- Sabe, todos nós temos pontos fracos e o seu é o próprio passado! – ele me golpeou com a espada. Rapidamente puxei minha e bloqueei, mas ele era superior fisicamente e me empurrou para trás. – Você é apenas um peão neste jogo, elfo! Não pode vencer forças superiores às suas.

- Não preciso te vencer. – respondi. – Apenas te atrasar.

Byden percebeu então. O combate havia acabado. Seus homens tinham fugido ou morrido na luta e ele estava cercado por um bando de crianças que uma vez tinha considerado um bem de troca. Agora eles eram guerreiros e estavam prestes a dar cabo dele.

Enny estava lá e me aproximei dela. Dei a ela meu arco, já estava forte suficiente para usá-lo e apontou para a garganta de Byden. Ela sorriu e, baixando o arco, gritou para seu inimigo:

- Nunca mais apareça aqui, cão! – as crianças riram, irritando ainda mais Byden. – Ou vamos fazer você comer a própria merda que faz!

Byden, frustrado, aproveitou a chance de sair intacto e partiu. O ato não me entrou na cabeça e fiquei claramente indignado com aquilo.

- Enny, que porra você fez? – tomei meu arco da mão dela, mas Byden já tinha sumido nas ruas. – Você o deixou vivo! Ele voltará, com mais homens, e agora fará disso uma questão pessoal!

Ela olhou para mim. – Não vou me tornar uma assassina de templários. Ele provavelmente vai ter que fugir da capital ou o novo Rei vai acabar com ele. Além disso, não te contratei para me dar conselhos, mas para me ajudar a lutar.

Ainda não compreendi a misericórdia de um inimigo que provavelmente voltaria para se vingar, mas deixei tudo quieto. O que Byden falou sobre a pessoa que me ensinou como impedir sua alteração mental era mais um mistério que tinha de resolver. Estava pronto para sair quando Enny me abraçou de forma bem constrangedora.

- Obrigada, senhor elfo. – ela disse sorrindo, como da primeira vez que a encontrei. – Engraçado, eu nunca soube seu nome.

Como forma de socializar, algo que detestava, pus a mão na cabeça de Enny e a afaguei. – Erdan. Meu nome é Erdan.

- Obrigada… Erdan.

Próxima parada, taverna daquele maldito anão.

Dedicado à Jorge Amado.

View
A Fuga de Under-Tyr
Conto

“Você pode conseguir ir muito mais longe com uma palavra amável e uma arma do que você pode com uma palavra amável e sozinho.”

Al Capone

- Acorde elfo vagabundo!

Uma mão de terra atingiu meu rosto descoberto, forçando-me a tossir a areia fora, enquanto me levantava. Não lembrava direito a razão de estar numa gruta escura, imunda e gelada, mas aos poucos os fatos foram voltando a minha mente ao observar Kaera ao meu lado, sentada, com o brilho de seus olhos apagado, como se tivesse perdido a vontade de viver.

- Onde estamos?

A pergunta saiu, mas Kaera pareceu não escutar. Apenas quando levantei e a toquei ela percebeu que estava catatônica. Algumas horas tinham passado desde nosso espancamento público nas ruas de Tyr, graças ao nosso bem-feitor, o Templário Byden, após resgatar sua querida irmã Roslyn. Nossa incapacidade de eliminar uma aldeia de Salteadores Draconatos e a ira de Byden ao ouvir nossa proposta para executar Roslyn foram motivações suficientes para que o bom templário nos condenasse a morte e tortura nas câmaras em Under-Tyr, onde vários vão, mas ninguém retorna.

- Oh, Erdan! – Kaera me abraçou, seus braços pegajosos, molhados de sangue seco e grudento. Seu corpo tremia de medo, algo que nunca esperaria de uma caçadora da Wasteland. Algo de ruim estava acontecendo.

Com a maior delicadeza que consegui, afastei Kaera, que me apertava com força, lentamente até que pudesse ver seu rosto e conversar diretamente. – Onde estamos? O que aconteceu?

- Estamos em Under-Tyr. – ela falou, antes de engolir um soluço e segurar uma lágrima.

- Disso eu sei. Conheço bem a cidade.

Ela me apertou mais uma vez, o que foi bastante desencorajador. – Eles os levaram! – ela soluçou. – Primeiro Jikon e depois… Hiekan.

Por alguma razão, o relacionamento de Kaera, que era uma bela elfa, com seu antigo líder Hiekan era mais do que profissional. Eles eram amigos, ou amantes, algo que não me entrava na cabeça.

- Kaera. – eu não era bom em discursos encorajadores, mas tentei o meu melhor. – Estamos presos numa caverna e não sabemos como sair. Se quisermos sair vivos e evitar o destino de Hiekan e Jikon, temos que pensar num jeito de escapar.

Pela primeira vez um discurso meu aparentou funcionar. Kaera estava mais alerta, ativa e finalmente me largou. Não que eu estivesse reclamando, mas ela não estava especialmente atraente quando suja de sangue humano.

- Muito bem. – ela limpou o rosto e se recompôs. – Vamos… vamos fazer isso! Vamos surpreender o guarda e agarrá-lo.

Eu ri, curto e sarcástico, mas de forma que ela entendeu que isso era loucura. Nossos captores eram meio-gigantes, fortes e armados, enquanto nós dois éramos elfos desarmados, subnutridos e feridos. Vi a face da esperança sumir de seu rosto, enquanto eu me recostava contra a parede de pedra. Observando todo o ambiente, comecei a fechar os olhos lentamente, procurando uma saída.

- Estamos perdidos, então! – disse ela, sentando ao meu lado. – Não há escapatória! Apenas essa agonia de não saber quem será o próximo, ou o que nos espera lá fora!

O desespero de Kaera não era desconhecido para mim, mas eu tinha aprendido a controlar meus medos. Nós da Tribo Shtar estávamos acostumados a nos encontrar em situações desesperadoras, onde o medo toma nossos corações e nubla nossas decisões. Éramos treinados arduamente a nunca desistir, nunca se render, sempre buscar uma saída, sempre tentar sobreviver.


Anos Atrás

- Nohan, o que foi?

Estava parado ao lado de uma caravana destruída. Provavelmente tribos canibais, afinal toda a carga ainda estava no local, mas a comida e os tripulantes tinham sido levados. Arrastados, amordaçados, prontos para serem servidos.

- Canibais.

- É, mas da mesma tribo que vimos anos atrás, lembra? – disse Nohan.

- Devo chamá-lo?

Nohan apenas fez sim com a cabeça e eu comecei a retornar a aldeia. A Tribo estava lá, pronta para mais uma jornada de 50 km pelo deserto, mas esperava a ordem de nossos batedores para avançar. Entretanto, teríamos que adiar nossa partida, afinal tínhamos encontrado algo que um de nós, um bem próximo de mim, estava procurando a tanto tempo.

- Shav. – disse, enquanto entrava na tenda de um elfo sentado ao chão, observando um velho livro, algo raro por esses cantos. – Encontramos uma caravana.

Shav virou-se. Seu rosto era perfeitamente simétrico, similar ao meu. Seus olhos eram profundos e tinham um ar de sabedoria intelectual que era incapaz de descrever.

E ele também era meu irmão.

- Erdan, não acredito que tenha mais alguma esperança de encontrar aqueles que me trouxeram até aqui. Mas se você e Nohan acham isso, não custa nada tentar, certo?

Minha relação com Shav não era das mais amistosas. Desde que ele chegou, tem sido o alvo das atenções da Tribo Shtar, inclusive de Vanya. Ela, que tinha sido prometida a Erdan, estava curiosa sobre o culto e educado Shav, o que deixava Erdan preocupado.

- Erdan, você e… oh, não o tinha visto, Shav. – disse Vanya que, como se saísse de meus pensamentos, aparecera no local.

- Vanya, está linda hoje. – disse Shav, tomando mais liberdades do que eu permitida. – Como está seu dia?

- Perfeito. – ela respondeu, jovial e feliz como sempre, mas ao perceber minha feição séria, ela logo mudou de assunto. – Erdan, preciso de mais medicamentos, o ferimento de Kurya está muito feio.

- Eu vou conversar com Nohan, estamos passando por um ninho de insetos, acho que podemos aproveitar alguns deles. – voltei-me para Shav. – Então, vamos?

O caminho, que era razoavelmente longo, foi se estendendo cada vez mais a nossa frente. O silêncio perdurou entre nós, até que finalmente Shav quebrou a trégua.

- Ela será uma ótima esposa…

- Não pedi sua opinião. – respondi, seco. Não gostava que Shav tivesse olhos para Vanya. Aparentemente, a única elfa que não podia ter se tornara uma missão para meu irmão.

- Erdan, eu juro, seus ciúmes são infundados!

Segurei forte meu arco. – Não são ciúmes, Shav. São fatos. Você usa de seus truques mágicos que, para mim, são perigosos e atraem um monte de inimigos que eu não tinha antes. Esses truques podem afetar a mente dos outros, eu já vi você fazendo isso. Eu confio plenamente em Vanya, mas não em você.

Shav ficou sem palavras, algo raro para o sabe-tudo, mas coçou o queixo e continuou após uma pausa. – Eu… queria poder recuperar os anos que estivemos longe um do outro, Erdan. Queríamos que fôssemos irmãos de verdade, não apenas por um fato de termos o mesmo pai. E que pudéssemos confiar um no outro. O que eu preciso para que isso aconteça?

Neste minuto, chegamos a caravana. – Uma coisa apenas. – disse, parando antes que Nohan pudesse nos ouvir. – Que você pare de dar em cima de minha mulher.


Presente

- Erdan! Você está me ouvindo?

Acordei de súbito de minhas lembranças do passado. Logo notei que Kaera estava me sacudindo. Eu aparentemente tinha sucumbido a dor e desmaiado num sono com sonhos sobre meu passado.

- Você… é mais bonito do que imaginei.

Percebi que minha máscara de ar tinha sumido, culpa dos carcereiros. Sabia que Kaera estava apenas jogando conversa fora, afinal eu nunca dei qualquer razão para ela se interessar em mim. Mas já havia algum tempo desde que eu tinha estado com uma elfa, a última foi com uma humana e até o momento estava enojado por minha atitude. Entretanto, eu…

- Já sei. – disse, falando baixo para Kaera.

- O quê?

- Sei como podemos escapar. – falei, enquanto escutava os pesados passos do meio-gigante se aproximando. – Mas tenho que lhe perguntar algo.

Neste momento, segurei o rosto de Kaera com uma mão e, com a outra, uma pedra pontiaguda que tinha encontrado.

- O quê? – falou Kaera, fechando os olhos enquanto aproximava meu rosto do seu.

- Você não é virgem, é?

Neste momento, ela se surpreendeu. A expressão facial era mais que suficiente para determinar sua resposta. Joguei-a no chão com força, o baque de seu corpo contra as pedras fazendo um barulho considerável. Neste momento, comecei a rasgar sua roupa com a pedra pontiaguda, enquanto seu corpo começava a aparecer na escuridão da caverna.

Seus gritos chamaram a atenção do meio-gigante.

- Que tá acontecendo aqui? – falou o não tão esperto meio-gigante.

- O quê? – eu disse, sorrindo. – Eu estou me divertindo pela última vez antes que vocês me levem minha vida.

O meio-gigante achou engraçado como eu tentava estuprar minha colega de cela. Pega de surpresa, apesar de ser mais forte que eu, ela não conseguiu se desvencilhar de minha investida. Eu já estava começando a retirar minhas roupas quando um humano cheio de cicatrizes entrou junto com o meio-gigante na minúscula cela, tornando o ato meio constrangedor.

- Bem, você realmente ganhou um belo corpinho para se divertir, elfo! – ele disse, enquanto lambia os lábios e observava os seios nus de Kaera. – Mas os presos não são permitidos terem diversão, apenas dor!

Neste momento, o meio-gigante me jogou contra a parede com um golpe das costas de sua mão. Com cuidado, evitei que batesse com a cabeça em uma pedra, me esgueirando nas sombras enquanto o humano se despia e o meio-gigante segurava Kaera, agora realmente incapaz de escapar, para que o ato começasse.

Os gritos de desespero de Kaera foram desaparecendo, enquanto minha busca pelo lado de fora de minha cela se provava frutífera: confiantes de que nenhum preso jamais escaparia, os guardas estavam distraídos, escutando tranquilamente Kaera ser violada, ofegando ao imaginar que eles seriam os próximos.

- Eu precisarei disso.

O golpe no pescoço do guarda foi fatal. O humano sangrou sua carótida inteira, enquanto tentava falar algo. O anão, que ainda tinha tempo de se levantar, foi infeliz, tropeçou numa pedra e, caído com uma pancada na cabeça, apenas desmaiou do impacto da pedra em seu crânio. Bati forte novamente, apenas para garantir que ele continuaria no chão.

- Por favor! Pare! Não!

O guarda estava em transe, parecia que não tinha relações por um bom tempo. – Você, minha querida, é a melhor foda que tive na minha vida!

Num momento, os braços de Kaera foram soltos. O meio-gigante estava com o pescoço perfurado por um disparo de besta por trás. O sangue espirrou na boca do guarda, que logo largou Kaera. Liberta, ela, num movimento rápido, pegou o pescoço do guarda e lentamente girou de uma forma que pescoços não giram.

A besta do guarda, que tinha poucas munições, estava em minhas mãos. Sem perder tempo, comecei a me vestir como um guarda, torcendo para que existissem guardas elfos nesta câmara também. Kaera, debruçada ao chão vomitando o que restou de seu estômago, olhou para mim, seminua, com aquele olhar assassino.

- Seu… monstro… – ela balbuciou, enquanto puxava a espada do guarda e se preparava para me atacar.

Levantei as mãos em posição de rendição e, sem entender, ela parou.

- Por quê? Por que fez isso comigo? – ela disse, com os olhos cheios de lágrimas.

- Para escaparmos. Para lhe dar esperança. Era a única forma, acredite em mim.

Cheguei perto dela e, lentamente, abaixei sua espada para evitar que ela ferisse alguém. Numa explosão de raiva, ela me golpeou com um chute no estômago. Tudo bem, acho que mereci isso. E continuou a esfaquear o guarda que a tinha estuprado, até que ele ficasse irreconhecível.

- Da próxima vez. – ela disse, agora recomposta. – Você que é estuprado.

Passando pelos escuros corredores de Under-Tyr, encontramos várias coisas que não achávamos que existiam almas vivas que faziam isso com seus prisioneiros. Acho que a maldade nas pessoas as torna piores quando descobrem que há Reis-Feiticeiros que permitem este tipo de atitude. Em uma das celas, encontramos Hiekan. Ou o que sobrou dele.

- Hiekan, por favor, responda!

Kaera tentava inutilmente reanimar o corpo de seu antigo líder/amigo/amante. Ele, para mim, estava destruído, seus captores fizeram um belo serviço, digno de um Salteador. Sem mãos, pés, rótulas, pálpebras, língua e dentes, Hiekan era um zumbi, mas pelo menos um desmaiado.

Até que Kaera teve a brilhante ideia de tentar acordá-lo. Tentei impedi-la, mas os urros de dor de Hiekan foram aterrorizantes demais para ela quando acordou.

- Hiekan! Malditos, eles vão pagar por isso!

- Kaera. – alertei-a. – Você sabe o que eu preciso fazer, não é?

- Não! – ela gritou, segurando a cabeça gemente de Hiekan.

- Mas, Kaera…

Ela interrompeu. – Eu mesmo faço! – ela puxou a espada do guarda. – Ele era da minha equipe, era minha responsabilidade! Eu faço!

Respeitando seus desejos, baixei minha pedra pontuda e me afastei. Um grito silenciado por um golpe seco de espada, seguido de um choro alto, se seguiram. Um minuto depois, Kaera saiu do quarto, completamente fria e recomposta.

- Então, como escapamos daqui? – perguntou.

- Eu já visitei Under-Tyr uma vez. Mas foi apenas nos níveis habitáveis, não nos The Sorrows. Eu pensava que não tinha nada de importante aqui.

- Pois bem. – ela disse. – Lidere o caminho.

Saímos procurando por vários túneis até que encontramos uma sala iluminada. Aparentemente, esta sala era do chefe dos guardas das câmaras de tortura. Lá haviam alguns documentos, peças de cerâmica (devidamente roubadas) e troféus de criaturas de Athas.

Começamos a comer a comida e beber a água do ambiente, relaxando por um tempo. Mas fomos surpreendidos quando um grupo de guardas, liderados por um comandante templário, desceram das escadas.

Um comandante templário que eu conhecia muito bem.


Anos Atrás

- Então, encontrou algo?

Eu estava irritado com a demora que Shav estava tendo para procurar a caravana. Nohan tinha nos deixado para iniciar a mudança da aldeia. Eu fiquei para trás para garantir que Shav retornasse em segurança, mas para mim ele estava nos deixando cada vez mais em perigo.

- Shav! – falei, perdendo a paciência. – Esta é uma região de canibais, quanto mais demorar, mais fácil de nos tornarmos seu almoço se torna!

Ao entrar na caravana, percebi Shav sentado no fundo da carroça segurando um pingente. Era feito de metal, algo que me impressionou muito, inscrito finamente com runas que não reconhecia. Shav finalmente saiu de seu transe e sorriu quando me aproximei.

- Irmão! – ele disse. – Este é um pingente de minha mãe.

Shav era meio-irmão. Nosso pai aparentemente tinha se engraçado com uma elfa de Balic em suas viagens solitário e a engravidado. A vida dele com minha mãe não foi muito feliz depois disso, como disse Nohan, e esta era uma das minhas preocupações com meu futuro com Vanya.

- Shav, vamos embora. Temos que sair daqui o mais rápido possível.

- Você não entende. Isso significa que ela ainda pode estar viva. Em Balic.

Eu realmente não compreendi. – Mas se seu pingente está aqui, ela provavelmente foi capturada por canibais!

- Não. Este pingente estava endereçado a ela. – Shav mostrou-me um documento assinado.

Shav tinha me ensinado a ler e escrever. Algo que ele chamava de “retribuição” por “salvar sua vida”, após o encontramos numa caravana para Tyr atacada por selvagens. O que consegui discernir era que um dos nobres de Tyr estava enviando um presente para Penot, a mãe de Shav, uma patrícia de Balic.

- Então… – falei pensativo. – Isso significa que você vai embora?

Shav balançou a cabeça positivamente. – E eu agradeceria eternamente se pudesse me levar a Tyr. De lá eu poderia ir sozinho a Balic.

Foi neste momento que eu vi, pela última vez, meu irmão.


Presente

Shav.

Mas uma vez, o destino cruzava nossos caminhos. Não sabia porque aquele mago estava lá, mas era uma ótima visão. Entretanto, ele aparentemente não nos reconheceu, pois mandou os guardas nos abordarem.

- Parados aí! – gritou um dos guardas. – Em nome do Rei Kalak!

Eu e Kaera nos preparamos para lutar, mas estávamos claramente em desvantagem. Armados e blindados, os guardas do templário, meu irmão, iam nos derrotar com certeza.

Um cheiro de carne assando, então, surgiu no ambiente. Logo, os dois guardas estavam pegando fogo, gritando em desespero enquanto suas armaduras colavam com seus ossos e eles se desfaleciam no chão. Foi então que percebi que Shav tinha sido tão traiçoeiro quanto esperado de um mago.

- Um feiticeiro! – gritou Kaera, preparando-se para investir.

Eu a impedi, enquanto me aproximei e percebi que a feição de Shav estava sólida, como se ele tivesse passado por muito. Quase não o reconheci e, é claro, acredito que ele quase não tenha me reconhecido.

- Erdan. – ele falou, em voz baixa, como se estivesse sentindo dores. – Somente você para estragar um plano de anos de planejamento.

Kaera parou e nos observou. – Você o conhece?

- Ele é meu irmão. – Kaera ficou impressionada, mas logo percebeu a semelhança entre nós dois. – Shav, vai nos ajudar a sair daqui ou apenas matou os guardas por diversão.

Shav nos observou do alto por um momento e, com um movimento rápido, lançou uma esfera de chamas contra a própria caverna, que começou a ruir.

- Mas… – protestou Kaera. – Ainda há pessoas lá dentro!

Shav continuou com seu rosto austero. – Não importa. As evidências de minha presença aqui precisam ser apagadas. E nada como um desabamento em The Sorrows para ajudar com isso.

Eu puxei Kaera e Shav, fugindo da caverna desabando. Na superfície, nos encontramos deitados sob a luz do sol carmesim que, pela primeira vez, senti falta de seu calor insuportável.

A mão de Shav pegava fogo, enquanto apontava para Kaera. – Ela também, Erdan. – ele disse. – Você pode ser confiável, mas ela não!

Rapidamente, eu consegui derrubar Kaera, sofrendo o impacto das chamas em mim mesmo. Girando nos tornozelos, eu disparei uma seta contra Shav como reação, que atingiu seu ombro, deixando-o ferido. Kaera se levantou e golpeou Shav com a espada, que apenas içou um escudo de chamas, queimando a mão de Kaera e a impedindo de golpeá-lo.

- Erdan, você não sabe o que está em jogo aqui! – gritou Shav. – O destino de uma cidade inteira depende de meu sucesso! Centenas de vidas estão em jogo, inclusive a minha e talvez a sua!

Levantei-me e o encarei. – Por que você não me explica?

Shav baixou seu escudo. Kaera estava alerta para seus movimentos. Sua boca mexeu, mas as palavras não saíram. Kaera ficou sem entender, mas eu compreendi perfeitamente. A razão, o destino de Balic e Tyr na balança, enquanto eu estava lá tentando salvar apenas uma vida de alguém que não merecia. Uma assassina, uma fugitiva, uma criminosa.

Uma elfa.

Aproximei-me de Kaera. Ela ficou sem entender quando a golpeei no rosto. Caída, desfalecida, ela apenas viu meus pés chutando seu estômago enquanto desmaiava. Olhei de volta para Shav que, com um movimento da cabeça, sabia que eu tinha que fazer aquilo sozinho. Puxei a espada de Kaera e, pondo-a em meus braços, a levei para fora da cidade, onde o sol carmesim se punha e as luas, gloriosas, se levantavam.

Eu fiz o que tinha de ser feito. Para mim, não havia uma escolha, desde o começo.


Uma Hora Depois

Kaera acordou abraçada pelas areias do deserto exterior da grande cidade de Tyr. Eu utilizava um de meus dias de sobrevivência que consegui com Shav para trazê-la de volta a vida. Ela me olhou e, repentinamente, saltou para trás, se preparando para a luta.

- Calma. – falei, oferecendo comida para ela. – Eu entendo que te trair duas vezes no mesmo dia não te deixa confortável ao meu lado.

Ficamos parados, observando um ao outro. Kaera estava observando o ambiente, procurando saídas, armas e algo que pudesse usar contra mim. Eu apenas esperava que ela se rendesse ao cansaço e aceitasse minha proposta. Finalmente, ela se aproximou e puxou a comida, se alimentando como se nunca tivesse comido nada como aquilo em sua vida.

- Por quê?

Sua voz, apesar de obstruída um pouco pela comida, era clara. Eu apenas a observava ali, parada, comendo como um animal faminto.

- Precisa me explicar melhor para que eu possa responder. – retruquei e, sem querer, sorri.

Ela deve ter visto um fantasma, porque nunca tinha antes me visto sorrir. – Por que me salvo? Por que não me matou como seu irmão queria?

- É… complicado. – eu parei e a observei enquanto ela terminava de comer. – Se você fosse de outra espécie, eu não pensaria duas vezes. Mas você é uma elfa. Eu não mato outros elfos, não assim.

Ela riu. – Você é um pior assassino, cafajeste e ordinário que já conheci. Não foi capaz de me matar porque sou uma elfa?

Ela sacou uma faca de suas vestes. Eu não percebi isso e ela avançou com tudo contra mim. Incapaz de me esquivar, ela se debruçou por cima de meu corpo, pressionando a faca de osso contra meu pescoço, cortando-o levemente, os fios de sangue tocando a areia.

- Por que não me diz a verdade dessa vez? – ela falou, enquanto se preparava para me matar.

- Porque você me lembra muito ela… minha esposa.

Ela parou. Ela acreditou. E tirou a faca de meu pescoço, mas com sua força superior me manteve no chão. Não que eu queria me levantar no momento, estava tão cansado que poderia dormir ali mesmo.

- Você é mesmo um cafajeste. – ela provocou. – Não.

Eu pisquei. – Não o quê?

Ela se levantou, guardou a faca e pegou parte de meus suprimentos. Antes de partir, ela sorriu para mim e falou.

- Eu não sou virgem.

Ao vê-la desaparecendo no horizonte, me senti completamente compelido a persegui-la. Mas sabia que se a seguisse, ela provavelmente o mataria. E eu lembrei também da mensagem secreta de Shav. Surreal, loucura e missão suicida era o que vinham a mente, mas eu devia uma a ele.

E quem diabos é Tithian?

View
Ruínas em Altaruk
interlúdio

A noite estava agitada em Altaruk. Uma arena de proporções incríveis foi montada no pátio da vila fortificada, isso principalmente por ter sido montada em torno de 10 horas de trabalho exaustivo dos escravos da cidade, algo que era comum, pois a arena havia sido arquitetada para ser pré-moldada, e ser usada apenas nos jogos elaborados pelos nobres da vila fortificada, passando o resto do tempo como blocos de pedras no norte da cidade.

Altaruk possui um domínio da alvenaria e da metalurgia singular, ambas herdada de Balic e aprimoradas pela constante resistência contras os gigantes das montanhas. Com várias investidas a vila aprendeu a “domesticar” alguns dos invasores gigantes, tanto que alguns são usados como mão de obra escrava, o que agiliza a construção e reparo da fortificação.


As trombetas ecoaram pela arena anunciado a entrada dos condenados, e nesse momento as aranha que já estavam na arena tecendo suas teias se agitaram e tomaram posição para o bote. Um total de 7 pobres almas entraram na arena trajadas com armaduras, cedidas caridosamente pelo alto poder de Altaruk, com o intuito de temperar o show macabro tradicional na zona de influência de Balic.

No pulvinar, com a visão privilegiada estavam as autoridades de Altaruk junto com alguns convidados. Dentre eles Tharxos Vordon, convidado pessoal de Arisphistaneles, lord e regente de Altaruk.

- Toda a Altaruk agradece por sua doação para esta noite. – Arisphistaneles se dirige a Tharxos no momento em que ele entra e se acomoda ao seu lado com seu inseparável guarda-costas, o halfling Derlan Watari.

- Eu e minha comitiva que ficamos maravilhados com a capacidade que essa vila tem para ser tão receptiva. – retribuiu o senhor da casa Vordon, junto com dois outros nobres que estavam com ele, ao balançarem a cabeça.

Nunca tendo visto os acompanhantes que seguiam o senhor Vordon, o regente da vila não quis ser indiscreto perguntando quem seriam, mas com a experiência comercial de um sagaz predador o senhor Vordon sentiu a inquietude sutil de Arisphistaneles, e achou melhor expor suas armas para o senhor de Altaruk, pois sabia que ele era um aliado influente e poderoso.

- Esses são os irmão Brevit de Tyr. São nobre aliado da casa Brevit, uma nobre casa estudante do Caminho, que a décadas fornece serviços para meus negócios. Eles não podem falar pois seu estudo especial no Caminho exige que se comuniquem apenas através dele.

- Um homem na sua posição precisa está sempre precavido, principalmente por aliados tão dedicados. – entendendo o motivo da presença do nobres.


A luta começou na arena, e os olhos de Tharxos foram tomados por um brilho sádico e seco, demonstrando que era um homens que adorava ver o sofrimento alheio, se não fosse de comum conhecimento sua naturalidade de Tyr, facilmente seria confundido com um dos nobres locais balicanos, famosos por apreciarem esses jogos.

Não importava quem fosse caindo durante o confronto, a multidão continuava berrando e atiçando ambos os lados. Mesmo que fossem os escravos de Tharxos Vordon que se encontravam em melhor posição no combate, o que importava para os espectadores era o banho de sangue proporcionado por eles, não fazendo diferença de que lado vinha.

Tharxos não conhecia nenhum dos escravos que havia cedido para a arena. Afinal, ele queria apenas o mago, e todos que estavam com ele eram descartáveis. Em sua mente megalomaníaca um plano estava traçado e a peça que faltava estava finalmente em sua posse, o que facilitaria a continuação dos negócios com o lorde Belroar Wingsong, membro do alto escalão da Verdade.

Mas ele sempre tinha um pé atrás com relação a Arisphistaneles, por algum motivo se sentia desconfortável com a presença do regente de Altaruk, mesmo que esse nunca tivesse sido um obstáculo para seu plano, atuando mais como um diplomata comercial. Mas como seu plano maior precisava da região onde Altaruk estava ele se sentia obrigado a ser próximo a ele, mesmo que fosse para nublar sua visão do objetivo principal.


Quando a disputa na arena já estava se decidindo para o lado dos escravos cedidos por Tharxos, uma estranha séries de explosões começou na arena. Como ela era construída para ser facilmente montada sua estrutura era frágil com muitas partes em madeira, o que facilitou que o fogo se espalhasse, e antes que alguma atitude fosse tomada um dos lados da arena foi ao chão e a confusão se transformou em pandemônio, os nobres no pulvinar apenas se preocupavam com suas vidas e como sairiam dali.

A fumaça e a multidão impediam que Tharxos visse o que acontecia na arena, mas num momento enquanto fugia viu que o grupo dos combatentes na arena se dirigiam para a abertura criada com a explosão e no meio da fumaça viu o que não acreditar, o mago solto e o que menos esperava, Talara, sua prima carregada por ele.

View
Inesperado Encontro
interlúdio

Não possuo nenhum contato em Kled, aqueles anões são pouco ambiciosos para poder formar qualquer tipo de negocio no qual estarei envolvido. E não poderei chegar em Kled sem ninguem do meu bando que foi praticamente dizimado por aqueles desgraçados. Mas como já tive que aprender antigamente, e de uma forma bem dolorosa, – nesse momento em meio ao pensamento, Ansgar coloca a mão na sua cabeça, alisando a cicatriz formada por uma queimadura – aprendi a manter partes do meu bando em outros “serviços”. Preferindo manter uma parte com Govinda, minha leal companheira de longo tempo.

Sei que andam saqueando ao sul de Tyr, e para encontrar-la terei que desviar um pouco do meu trajeto, mas prefiro arriscar esse tempo indo atras dela, do que ter que enfrentar um número desconhecido de inimigos sozinho. E pelo que fizeram a meus subordinados, enfrentarei inimigos poderosos.


Foi complicado, mas consegui encontrar o bando de Govinda, bem ao sul do meu acampamento destruido. Mesmo tendo caras novas no bando, tenho total confiança nela, afinal crescemos e sofremos juntos, encontrando um alento momentâneo quando juntamos nossos corpos.

Não pude ter esse alento, pois tinha pressa em chegar a Kled, e rapidamente com uma ordem dela o grupo se preparou para me seguir. Minha perna ainda doia muito, maldito halfling.

No caminho compartilhei as informações do trabalho com ela. Um sujeito novo no bando, talvez um novo imediato dela, não saia do seu lado, e também não dizia uma única palavra. Mas o que mais me chama atenção nele, era uma tira de couro que parecia mais uma focinheira, na sua boca. Reparando na minha constante visão para esse humano singular, ela me disse quem era ele.

Ele se chama Kresdo, e antes de se juntar ao bando era um barbaro nômade, que a alguns meses havia se juntado ao grupo junto com outros. Ele usa essa tira de couro na boca porque quando jovem, teve sua mandibula arrancada por causa de uma mordida de jhakar, levando junto sua lingua, por isso não falava.

Mas pelo que vi desse sujeito parecia leal a Govinda, e por não precisar falar se dedicou a adquirir uma força física que supera a minha, pelo menos visualmente.


Decidimos contornar o pé das Ringing Mountains, na espera de talvez encontrar o desgraçado do mago e seus colegas.

Mas infelizmente essa tenha sido uma má escolha. Ao cair da noite fomos atacado de surpresa por largatos humanoides. O ataque foi fulminate, que em questão de pouco tempo já tinha derrubado alguns que estavam dormindo, e se aproveitando da vantagem levaram alguns dos nossos, incluindo Govinda. Minha mobilidade com essa maldita faca, não era das melhores e a única coisa que pude fazer foi ficar dentro da tenda atacando algum destes invasores que entrassem dentro.

Por sorte Kresdo não tinha caido, mesmo que seu corpo mostrasse que havia levado vários golpes. Ele me indicou o caminho que os largatos haviam ido, reuni o restante do bando que havia sobrevívido e seguimos os rastros deixado por eles. Não foi dificil ver que entraram numa caverna, pois os capturados por eles, deixavam rastros de sangue.


Dentro da caverna continuamos seguindo seus rastros, o que se tornava cada vez mais dificil e perigoso, pois tivemos que passa por várias armadilhas, provavelmente construidas por eles para proteger sua toca.

Quando chegamos no que seria a tribo deles, vimos algo fascinante e por um momento esquece de tudo, do porque de está ali, do porque ir pra Kled. Isso tudo porque tinha encontrado algo que desejava muito, e já duvidava se realmente era real e se fosse, se teria a chance de ver com meus proprios olhos. A fonte do mapa.

Mas esse momento foi passageiro, pois vi que os largatos não estavam sozinhos, o mago, seu irmão e provavelmente os outros que mataram meu bando estavam lutando com eles. Pedi para o bando esperar este combate terminar para que, qualquer que fosse o vencedor, nós tirariamos vantagem do seu cansaço e das feridas.

Agora entendo, porque deles conseguirem acabar com o meu bando, já estão a mais ou menos 3 dias nessa caverna e ainda conseguem enfrentar esses largatos com um desvatagem numérica, mas com muita força. Se não fossem os negocios, traria eles para o bando, menos o mago, não confio nessa corja.

Mesmo com toda a bravura e raça que poucas vezes presenciei, eles foram caindo um a um, e a situação deles ficou mais crítica quando um largato enorme saiu de uma toca no rio, nesse momento iria agir pois, mesmo tendo achando meu tesouro, à muito procurado ainda tinha uma negocio inacabando com os Vordon, e sei que mesmo expulsando esses largatos e me escondendo aqui, um dia eles me encontrariam. A influência deles em Athas é monstruosa!

Quando esse monstro apareceu para dar fim no combate, outra coisa inesperada ocorreu, um dos corpos caidos do bando do mago se reanimou, não sei como isso aconteceu, pode ter sido alguma magia proferida por ele, pois eles são mestres em acabar com a vida dos outros. Essa mulher se transformou numa que parecia um fantasma feito de água, uma coisa sem sombra de duvida feita por um maldito mago, que a enfeitiçou.

Quando o último caiu e um moribundo, que parecia apenas segui-los, fugiu desisperado, vi que era hora para agir. Mesmo derrotados, eles haviam derrotado a maioria do guerreiros da tibo e o “fantasma” tambem deixou o corpo da mulher, que foi dividido ao meio com uma abocanhada da fera, quando o espirito deixou o corpo.

Quase de imediato vi que eles iriam dar o golpe final em cada um dos caidos. Prontamente gritei para Kresdo e um grupo terminar com o largato gigante, que tambem já aparentava cansaço e um grupo liderado por mim iniciou o ataque ao largatos restantes.


Como estavam exauridos com o combate, e nos já tinhamos descansando um pouco ao rastreiar ele. Nossa vitória foi rapida. Kresdo, um monstro em forma de homem derrotou o outro monstro com consecutivos golpe e o trabalho em equipe do seu grupo foi fundamental para seu sucesso.

Com os guerreiros abatidos, restavam apenas as mulheres e as crianças da tribo. Que mesmo apresentando uma pequena resistência, foram facilmente aniquilados. Eu libertei o resto bando preso pelos largato e vi que Govinda estava bem.

Com o bando reunido e com totos os objetivos compridos, a viagem para Kled se tornou inútil e agora só faltava entregar o mago ao Vordon. Então dividi o bando novamente, deixei Govinda e alguns cuidando de eliminar os corpos dos habitantes da tribo extinta, e cuidando da fonte, enquanto eu, Kresdo, que me viu como o lider real do bando decidindo me seguir, e mais alguns menos ferido seguimos para Altaruk, o ponto de encontro para deixar o mago com os Vordon e fazer mais dinheiro com os outros.

View
A Busca
interlúdio

Na noite congelante do deserto, Ansgar em sua ira interna se deparou com uma cena que não desejava ver. Abutres devoram os restos mortais do seu bando no meio da estrada, montado no kank espantou alguns quando viu Klendiar, seu braço direito, semi devorado. Mas não foi por remorço ou alguma amizada que nutria por ele, mas pela esperança de rever o mapa deixado com ele pela manhã.
Desceu com cuidado da montaria, para não quebrar a adaga fincada na sua perna e revirou os bolsos do falecido moribundo, e quando viu que o mapa não estava ali berou o mais forte que pode.

Desejando chutar o desgraçado por ter deixando o mapa ser tirado dele por quem quer que seja, se contentou em erguer uma pesada pedra, com sua força, e esmagar a cabeça do morto para descarregar sua ira de frustração.


Voltando para onde estavam acampados não esperava ver mas carnificina, mas foi isso que viu quando alguns membros do bando mortos e alguns aarakocras e kenkos mortos. Um breve sopro de esperança de ver o mapa novamente reverberou por ele, mas logo foi apagada porque mesmo forte era sábio o suficiente para entender que se essas aves estavam mortas era porque outro grupo havia passado por ali. E isso ficou ainda mais evidente quando notou um rastro de pegadas de mais ou menos 5 ou 6 humanoides.

Ansgar era uma pessoa com inteligência media de um atharsiano, mas mesmo não sabendo ler ou escrever, a dura vida que teve foi suficiente para molda-lo. Como todos em Athas, ele é um sobrevivente acima de tudo, e encontrou seu oficio como traficante de escravos para Tyr e como chefe de bandoleiro nas estradas que montavam acampava.

Mas com o fim da escravidão em Tyr, Ansgar continuo trabalhando como contrabandista oculto para as casa mercantis que ainda atuavam, de forma perigosa, por de baixo dos panos em Tyr, nesse tipo de negocio para as outras cidades.


Os rastros rumavam para nordeste, e ele não havia visto nenhum acampamento nas redondezas de onde seu acampamento estava, então concluiu que quem havia atacado estava rumando para uma vila ou cidade naquela direção, e até onde sabia Kled era o único agrupamento nas proximidades. E lá poderia encontrar os foragidos pois seus corpos não estavam entre os mortos na estrada e nem no acampamento. E de alguma formas eles poderiam está envolvidos.

View
Horrores do Norte
Conto

“Conheça seu inimigo mais do que a si mesmo.”

Sun Tzu

O Sol Carmesim nunca concedeu trégua, mas hoje ele parece que acordou de mau humor. O suor dos homens e mulheres trabalhando em Tyr mal caía ao chão e eu realmente esperava ver a areia das dunas do deserto se transformarem em vidro.

Mas minhas atenções se voltaram para a comida no prato à minha frente. Já estava me acostumando com o dinheiro recebido por Jenna desde o último serviço, quando percebi um enorme meio-gigante se aproximando de mim, tendo ao seu lado um companheiro humano magro, mas bastante tatuado. Fingi não prestar atenção, mas eles cochichavam entre si e o meio-gigante, seguro de si, se aproximou de mim como se estivesse prestes a apertar minha mão.

- Então – disse o meio-gigante – você é o tal Erdan, não? – ele falou, com um sorriso no rosto e uma clava de osso maciça nas costas.

- Sim. – disse o magro, de um jeito totalmente combinado e artificial. – O elfo que acabou com Morn, Karadan e seus grupos. Ouvi histórias sobre você.

Posso ter até tido uma participação no fim de ambos, mas não gosto de me gabar por isso, portanto eles teriam de se contentar com um olhar e um gole de água.

Mas, obviamente, ele não estavam satisfeitos. O meio-gigante puxou uma cadeira, segurou meu braço com sua enorme mão, e sorriu para mim. – Você não parece ser tanta coisa.

Notei que o meio-gigante apertava meu braço, a ponto de esmagá-lo com certa facilidade. O humano, sorrindo sadicamente do lado, apenas observava a dor extraída em meus olhos. Eu resistia ao máximo possível, principalmente porque me contorcer de dor além de ser mais discreto do que gritar também distraía a atenção do meio-gigante de minha faca.

Um urro ensurdecedor preencheu a área de alimentação do Distrito das Caravanas em Tyr. Devo dizer que o golpe com a faca foi quase perfeito, atingindo o pulso e, se ele fosse um humano, teria perdido a mão para sempre.

Quase que imediatamente ele largou meu braço, atordoado pelo inesperado ataque. Sem ter muito o que dizer, peguei o humano pelo braço e falei em seu ouvido. – Saia de meu caminho, imbecil!

Os guardas dos templários se aproximaram e viram a confusão. Simulei minha melhor face, um pouco melhor do que meu sério normal, e esperei pela chegada do templário local, um homem de meia-idade castigado pelo sol, mas com um olhar perspicaz e inteligente.

- O que está acontecendo aqui? – disse ele, em tom de ameaça, enquanto seus soldados nos cercavam.

Falei com minha melhor voz. – Meu amigo aqui se machucou enquanto comia. – disse apontando para o meio-gigante. – Creio que ele não estará empunhando sua clava nem tão cedo.

Antes que pudesse avançar sobre mim, um dos guardas do templário o golpeou com uma marreta, o que o jogou ao chão desacordado. O outro fugiu rapidamente pela multidão no meio da confusão. O templário, claramente inteligente suficiente para ver através de minha péssima mentira, apenas fez um gesto com a mão para que eles baixassem as armas.

- Belo corte, muito preciso. – disse ele, olhando para a mão ensanguentada do meio-gigante. – Ele nunca mais poderá empunhar uma arma, você sabe disso.

Não respondo bem ao óbvio, mas estava falando com um templário, um homem que facilmente poderia me mandar para a escravidão pelo resto da minha vida, então tentei ser educado. – Um golpe de sorte. – desmenti a mim mesmo e fiquei surpreso com isso, pois o templário sabia como me convencer. – Não tive escolha. – tentei corrigir, mas sem sucesso.

- Você é Erdan, eu creio.

- Sim. – respondi novamente o óbvio. – Quem deseja saber?

- Meu nome é Byden, templário. – ele olhou para os guardas e fez um gesto para eles carregarem o meio-gigante dali. – Eu poderia facilmente prendê-lo por distúrbio, Erdan, mas tenho uma proposta melhor para você… algo que não pode recusar em sua situação.

Depois de mestres escravistas, templários são a segunda coisa que mais me irrita nas cidades-estados. Dotados de autoridade concedida pelo Rei-Bruxo, eles podem com um dedo mudar completamente sua vida por apenas um capricho. E eu adoro controlar o meu destino.

Eu e Byden nos dirigimos para um local mais reservado. Para onde íamos eramos cercados por uma multidão. Via a maldade em muitos deles, adorando o sangue escorrendo pelas ruas, enquanto outros se assustavam, e alguns nem ligavam.

Civilização. A terceira coisa que mais odeio.

- Tenho um serviço para o senhor, Erdan. – disse Byden, pedindo uma bebida de kank e sentando-se numa cadeira. Ao contrário de outros templários, ele era bem musculoso e apesar de sua idade, tinha poucas cicatrizes, o que indicava que ele era bem habilidoso em combate.

- Eu quero encontrar uma pessoa. O nome dela é Roslyn e ela foi capturada por traficantes de escravos draconatos há pelo menos dois dias. Ela tentava chegar a Altarur, mas foi interceptada antes.

Fiz com que sim na cabeça e abri a boca, mas ele levantou a mão para que não o fizesse. Ele mostrou o que parecia ser uma mecha de cabelo ruivo e um desenho de Roslyn. Memorizei as feições dela e devolvi o desenho, mas fiquei com a mecha.

- Meus termos então. – falei, finalmente. – Quando eu sou contratado, eu sou pago. Eu trabalho melhor sozinho e se houverem conflitos e despesas, elas deverão ser cobertas. Isso tudo se quiser que esse resgate seja bem-sucedido. Entendido?

Ele sorriu. – Mas… você não entendeu realmente sua participação nisso, não é? – ele coçou o queixo e continuou. – Você não deve resgatar Roslyn, mas escoltar um grupo de mercenários que eu contratei para sua base.

Isso me pegou de surpresa. Realmente, eu não era tão experiente, mas pelo menos sabia me esgueirar e remover alguém de um local sozinho. Mas finalmente entendi o brilho dos olhos de Byden. Eram olhos que ansiavam por sangue e vingança.

- Muito bem. – disse finalmente. – Menos trabalho para mim então.


Esta é a última vez que eu trabalho para uma equipe. Quatro me acompanharam, dois humanos, uma elfa e um mul. O último era o mais quieto, mas um dos humanos, Hiekan, não conseguia manter sua boca fechada. Ele falava desnecessariamente e reclamava de tudo, e ao fim de nossa jornada eu torci para que ele se perdesse no deserto.

Mas eu tinha um serviço. E eu termino meus serviços.

Chegamos aos arredores do acampamento dos draconatos. Eles possuíam uma força considerável, o que me impressionava o fato de Byden ter nos enviado aqui para enviá-los a próxima vida. Mas meu serviço era apenas de escoltá-los na ida e na volta, e meu serviço estava feito.

- Muito bem, Hiekan, Jikon, Kaera e Balk. – disse olhando para o humano e a elfa. – Estarei aqui nos arredores esperando por vocês. Partirei ao nascer do sol amanhã caso não retornem.

Kaera, a única mulher e elfa da equipe, deu uma gargalhada. Sou um elfo bastante conservador, o que me deixava constrangido quando via um ser de minha espécie agindo de forma estranha. – Você realmente nos deixaria aqui? – disse ela. – O que acha que Byden faria quando retornasse para Tyr? Ele arrancaria seus ossos.

- A elfa tem razão. – disse Jikon, arrumando seu arco. – Ou voltamos com a garota, ou não voltamos de jeito nenhum.

Dito aquilo, eles partiram para o conflito naquela noite. Esperei por muito tempo, mesmo depois do amanhecer, então finalmente fique preocupado. Um sentimento que eu não gosto de ter. Verificando o campo, percebi que os tolos tinham sido capturados e estavam sendo torturados pelos draconatos. Balk, o mul, tinha sido o primeiro a cair. Apesar de sua compleição física avantajada, os draconatos pegaram pesado nele, arrancando orelha, olho, dente e outros pedaços que não nos deixam vivos. Provavelmente o torturaram por horas antes dele se render aos ferimentos e cair morto. Isso explicava do por quê os outros ainda estavam vivos.

Os draconatos estavam prestes a enterrá-los em tumbas recém-cavadas, quando minha flecha atravessou o pescoço de um dos répteis. Aproveitando a situação, Hiekan desarmou um segundo, enquanto Jikon saltava no pescoço do terceiro. Kaera buscava uma espada caída e estocava o draconato que Hiekan derrubara com um chute nas pernas, enquanto Jikon quebrava o pescoço do outro.

- Finalmente decidiu aparecer, guia. – falou Kaera, com um sorriso nos lábios. – Pensamos que tinha esquecido de nós.

Apenas desci da duna onde estava escondido e me aproximei. Hiekan ainda me olhava com irritação nos olhos, enquanto Jikon tinha certeza de que os draconatos estavam devidamente mortos.

- Então, o que estamos esperando, vamos sair daqui! – disse Hiekan, preparando-se para partir.

Segurei o ombro dele com firmeza. – Não vamos embora até que o serviço esteja completo.

Hiekan sorriu e escapou de minha mão. – Nunca mais retorno lá. – ele cuspiu um pouco de sangue. – Aqueles draconatos são piores do que as tribos nômades.

Não gostava daquela situação, mas também não gostava do que viria se não terminássemos o serviço. Portanto, puxei meu arco e flecha e apontei para a cabeça de Hiekan. Jikon e Kaera foram espertos o suficiente para se afastar, puxando armas, mas Hiekan foi pego de surpresa e ficou paralisado em minha frente.

- Se eles me atacarem, você morre. – disse olhando fixamente para Hiekan. – Nós recebemos um serviço, e eu irei cumpri-lo, com ou sem vocês.

Por um momento, ficamos lá, parados, esperando a ação do outro. Mas Hiekan finalmente cedeu. – Muito bem. – ele disse. – Vamos terminar esse trabalho. Mas nada mais de flechas apontadas para minha cara, seu filho da puta.


Atacar de frente uma aldeia de draconatos não era a ideia mais inteligente, mas foi o que Hiekan, Jikon, Kaera e Bulk fizeram, ao custo da vida do último. Os draconatos desta tribo eram extremamente brutais, mas de alguma forma, Byden parecia acreditar que Roslyn estava viva.

Quisera ela estar morta.

Após nos infiltrarmos silenciosamente e, com uma ou duas mortes de draconatos depois, resgatamos Roslyn.

Ou o que restou dela.

A mulher, que pelo retrato parecia bastante bonita, estava completamente desfigurada. Seu nariz tinha sido cortado, junto com suas orelhas, lábios, e todos os dentes da boca. A língua tinha sido poupada, mas um olho estava perfurado por uma farpa de madeira. As mãos demonstravam a falta de pelo menos quatro dedos das mãos e nenhum dos pé, e um polegar claramente mastigado. Um seio tinha sido arrancado e costurado. Os draconatos tinham deixado ela ser violentada por alguém por muito tempo, devido aso ferimentos em sua vagina e ânus, mas provavelmente estas pessoas sumiram e eles começaram a se divertir com ela.

A mulher mal conseguia se mover após o resgate e precisou que Jikon e Hiekan a carregassem até o exterior do acampamento. Jikon era habilidoso com ervas e bandagens, e a deixou forte o suficiente para resistir a viagem de volta.

- Minha nossa! – comentou Kaera, enquanto voltávamos para Tyr. – Mas quem seria capaz de fazer uma coisa dessas? – ela olhava com carinho e pena para Roslyn. – Pensava que Bulk tinha sido o único que sofrera desse jeito, pois tinha matado uns membros da aldeia, mas com uma escrava? Isso é completamente novo para mim.

Fiquei silencioso. Hiekan olhava para mim e notou que eu sabia o que eram estas criaturas. – Você sabe de algo, elfo-guia! Conte para nós!

Foi aí que lembrei de um fato há muito tempo atrás, antes mesmo de me tornar um escravo…


- O que houve, Nohan?

Nohan estava lá, sentando ao lado de um corpo completamente mutilado. O jovem, que não tinha mais do que treze anos, tinha tido suas tripas arrancadas enquanto ainda estava vivo. Ela possível notar a expressão de dor e horror que ele tinha em seu rosto. Apesar de homem, seu ânus estava destruído, provavelmente por uma peça rombuda… ou uma criatura enorme.

- Eles estão ficando cada vez mais audaciosos, Erdan. – Nohan se levantou e tocou no meu ombro. – Avise a todos. – ele olhou mais uma vez para o corpo, antes de acenar para outros dois companheiros para incendiarem ele. – Vamos nos mudar agora.

- Mas Nohan, – protestei – acabamos de nos assentar nessa região. Deveríamos durar pelo menos mais um mês por aqui.

Nohan fez a cara de sério que eu sabia que ele estava preocupado com algo. Nohan era o melhor guerreiro da Tribo Shtar e destemido. Mas por um momento pude ver o terror atingir o coração dele, e essa imagem não sumiria nunca da minha memória.

- Preste atenção, Erdan, e preste muito bem. – ele disse, em tom sério, sem tirar os olhos de mim. – Existem certas pessoas… draconatos, humanos, muls, elfos, meio-gigantes… que decidiram um dia explorar o deserto. Essa história é conhecida por muitos, mas a versão que a maioria conhece é que eles morreram na tentativa, e que todos que tentaram segui-los morreram. A versão verdadeira é que a maioria deles testemunhou algo no deserto que os mudou completamente – ele apontou para o cadáver queimando – em criaturas sem mente brutais e com sede de sangue. Eles são conhecidos como Salteadores, e ficam para o norte de Athas, onde vivem brutalizando as tribos locais. Nunca pensei que encontraria um bando deles por aqui: eles estão ficando audaciosos.

Olhei fixamente para Nohan. Não queria acreditar que existia um povo inteiro de criaturas desprovidas de moral. Mas quando vi sua seriedade, apenas pude questionar o óbvio.

- Como sabe disso, Nohan?

Ele olhou para mim. – Apenas três pessoas conseguiram fugir dos Salteadores. Eu, um humano e um anão.


- Como assim, devo sacrificá-la?

Byden estava irritado com minha proposta. Mas Roslyn tinha um corpo, porém quando olhava em seu olho bom, via-se que não havia alma ali. Era certo que, mesmo utilizando magia para curar seus ferimentos, sua mente estava destruída. Algo que tentei explicar, sem sucesso, a Byden.

- É verdade, Byden. – disse Kaera. – Aquela aldeia de draconatos não era nada igual ao que vimos antes.

- Não foi a toa que precisamos fugir dali rapidamente. – disse Jokin.

Aquilo foi a gota d’água para Byden. Ele tinha pedido especificamente para nós obliterarmos a aldeia, e nós não o fizemos. Uma centelha de ódio fugiu de seus olhos e, com um movimento rápido, todos nós estávamos no chão, aturdidos pela magia conjurada. Em questão de momentos estávamos sendo presos por guardas do templário. Enquanto ele segurava uma destruída, porém revitalizada, Roslyn.

- Então, vocês me traíram! Pensaram que poderiam me enganar. Mas não, eu Byden os setencio a escravidão. Melhor: à morte! Teremos uma sessão de tortura antes de que vocês possam partir dessa vida para uma próxima.

Então, finalmente percebi: apesar de brilharem, os olhos de Byden eram quase tão vazios quanto os de Roslyn. Eles tinham passado pela mesma situação, mas ele tinha sofrido menos. Agora, por causa da loucura causada pelos Salteadores, nós estávamos fadados a morte por tortura nas câmaras dos templários.

Retiro o que eu disse. Eu odeio templários mais do que escravistas.

View
À espera dos foragidos
interlúdio

O sol já se punha por traz da imponente Golden Tower em Tyr, quando um robusto kank atravessava o distrito dos comerciantes montado por um humanoide encapuzado, um horário em que o movimento no local se torna cada vez menor. O cavaleiro do kank parou sua montaria na frente de uma loja grandiosa localizada no coração do distrito.

O estabelecimento possuía o símbolo de um grande diamante negro na frente, e o cavaleiro adentrou esse estabelecimento descobrindo seu rosto. Ele era um elfo careca que possuía uma cicatriz que cobria grande parte da sua cabeça.

Um mul servia como leão de chácara para a loja, e já sabendo quem era o elfo, falou para ele com cara de poucos amigo.

- O chefe espera por você nos fundos.

Ansgar, chegando numa divisória de contas mais dentro da loja foi empurrado pelo mul com força suficiente para cair de cara no chão já dentro desse cômodo. Voltando a cabeça para cima com surpresa, viu um homem vestido com roupas negras com detalhes amarelos, sentado numa cadeira atrás de uma mesa olhando fixamente para ele.

- Como meu falecido pai sempre disse, os elfo são melhores roubando e enganando do que negociando. – falou o homem, com um olhar que parecia lançar dardos em quem ele fintava.

- Mas não é possível, sou o melhor no que faço. Deve haver algum engano, senhor Vordon. – disse Ansgar se levantando, limpando sua camisa, e olhando para o imponente homem que o encarava, com cara de incrédulo e não entendendo o que estava acontecendo.


Na sala além de Ansgar, Thaxos Vordon e do mul que fechava a saída da sala, estavam mais dois humanos trajados com roupas nobres, sentados na sala com os olhos voltados para Ansgar. E também um halfling que estava ao lado da cadeira do chefe da casa de comercio, Derlan Watari. Ele era o único que não estava como a cara fechada, não só isso, até parecia que um breve sorriso escorria da sua boca.

- Os dois que aguardamos ainda não chegaram. Você falou, seu elfo miserável, que estariam nas mão deste nobres homens ainda esta noite!

- Mas eles já estavam a caminho hoje a tarde e pensei que veria seu sorriso juntamente… – demorou Ansgar para falar, quase engolindo o que ia dizer- como o restante do meu dinheiro.

Os olhos de Thaxos Vordon inflamaram pela ousadia de Ansgar, e ele pensou, como um relis bandoleiro escravagista estava tentando dar as cartas num jogo em que ele era experiente, ou melhor, um dos melhores jogadores. Porque mesmo com o fim da escravatura em Tyr ele e sua casa ainda negociavam escravos para outras regiões, e quando um escravo em especial era requisitado, a sede em Tyr ainda se envolvia nesses assuntos, mesmo que para isso, tivesse que molhar a garganta de algumas pessoas influentes mais manipuláveis.

Mas logo sua calma e experiência tomaram a frente, e ele ponderou com o elfo.

- Lhe darei mais uma chance, Ansgar, até hoje não me arrependi dos trabalhos seus, e dos seus homens, mas – interrompeu a fala e olhou rapidamente para o halfling – preciso de uma garantia que irá cumprir o prazo desta vez.

Como um lagarto, o halfling se esgueirou agilmente pela mesa, não dando tempo para uma reação do elfo, fincado uma adaga na perna esquerda dele. Ansgar foi tomado de surpresa e não teve ação até a adaga já está fincada nele. E a única coisa que fez foi urgir de dor e colocar a mão no cabo da adaga, quando foi avisando por Thaxos.

- Se fosse você não tentaria remover essa adaga da sua perna, pois a lamina dela é muito frágil e caso tente puxa-la se quebrará e liberará um veneno que lhe matará em poucos segundos. E o único hábil para remover essa adaga é Derlan, que o fará assim que tivermos nossa mercadoria. Agora saia daqui e traga-os a mim pessoalmente.

Ansgar sentia muita dor na sua perna, e saiu mancando da presença de Thaxos e da loja, e com todo o cuidado subiu no kank tratando de cobrir sua perna com cuidado para não levantar suspeitas. Ele cruzou a saída de Tyr, e não parava de pensar.

“Quando terminar esse maldito trabalho e entregar o maldito mago e o irmão dele para Thaxos irei te matar Derlan!”.

View
A lenda de um Povo
conto

Dois dias antes de Varlana encontrar Sachla morta.

Um fedido e sujo humano, carrega uma pequena menina assustada pelo pescoço como se ela fosse apenas um animal até um elfo careca e com uma cicatriz que cobria todo o topo da sua cabeça.

- Veja o que eu achei fuçando nossas coisas, Ansgar. – falou o homem que carregava a criança ao elfo.

O elfo se levantou da pedra que estava sentado com vigor e já sabendo do que ela estava atrás, gritou se aproximando da garota.

- Puta humana devolva o mapa!

- “Ele é de nós. O mapa e do meu povo e eu vem para resgatar o que é de nós.” – respondeu a garota com arrogância e sem teme-los.

A garota tinha pouco mais de uma dezena de anos, mas já carregava o peso de ter nascido sob o carmesim. O que a tornava corajosa e tola o suficiente para entrar sozinha num acampamento de saqueadores do deserto, que na noite anterior saquearam sua vila em busca do tesouro mas sagrado para seu povo, o mapa da fonte onde seus antepassados foram enterrados à gerações atrás e fora tirada a força deles por um inimigo que se perdeu nos contos da tribo, e que agora nada mais é que um lugar lendário para seu povo.

Ansgar deu um sorriso em resposta a arrogância da criança, como se visse a força de um povo com esperança por traz do gesto da criança. Mas isso não era suficiente para amolecer seu coração e com violência deu um soco no rosto da menina que teve um dente arrancado com a brutalidade da pancada.

- Isso é o que colhe por ainda tentar cultivar esperança nessa terra estéril. – falou Ansgar se agachando próximo ao ouvido da criança e pegando o mapa de sua pequena bolsa, com violência – Agora levem ela para os humanos, que a muito tempo não se divertem, e estão começando a me encher.

Após se levantar enrolando o mapa, o entregou a um capangas elfo. Ele viu a garota ser arrastada pelos cabelos longos e ensebados enquanto se debatia e gritava por sua mãe, em quanto subia num robusto kank. E em quando Ansgar se afastava do acampamento em direção a Tyr, ouvia os gritos de Sachla e os gemidos dos seus homens se misturando numa sádica melodia que calava o silencio do deserto.

View
O Tesouro Perdido
Conto

“Certamente não há caçada como a caçada humana, e aqueles que já caçaram homens armados e gostaram nunca ligarão para mais nada depois disto.”

Ernest Hemingway

Era metade de um dia mais quente que o normal em Tyr quando eu fui abordado. Eu estava começando a se acostumar com todo tipo de clientes, aqueles que querem apenas recuperar um anel perdido, outros que querem a morte de um comerciante concorrente, e ainda aqueles que querem apenas ajuda em uma viagem para outra cidade ou vila. Mas certamente me surpreendi com a pessoa que estava a minha frente, segurando com imprudência um saco de moedas, enquanto estava eu sentado em meu costumeiro local próximo às tendas do Distrito de Caravanas.

- Senhor Erdan? – uma voz fraca, feminina e jovem demais falou por debaixo dos excessivos mantos que lhe cobriam.

- Sou eu mesmo. Você está procurando algum serviço específico?

A mulher ou garota estava usando roupas pesadas, que cobriam totalmente seu corpo. De alguma forma, naquele calor, ela não tinha desmaiado ou desidratado, então, segurando minhas interjeições de surpresa, apenas esperei momentaneamente para ela responder.

Ela pareceu apreensiva.

- Quero que o senhor me ajude a encontrar alguém. – disse ela, finalmente. – Esta pessoa é muito importante para mim e está desaparecida. Poderia fazer isso?

Quando “desaparecida” soa em meus ouvidos, eu sinceramente não tenho a ínfima esperança de ver pelo menos um corpo, mas estava a quase dois dias sem comer direito e já estava racionando minha água. Fiz a besteira de trocar algumas flechas por uma água barrenta que apenas acelerou meu processo de desidratação e ainda não tinha pessoalmente me vingado do anão que me vendera. Por isso, apenas concordei com a cabeça e os estranhos olhos verdes da garota pareceram brilhar de alegria.

- Então partiremos imediatamente! – ela falou com energia e entusiasmo renovados. – Minhas coisas estão comigo. – ela tateou uma pequena mochila de couro reptiliano.

Coisa que eu detesto nesta vida são a capacidade do cliente achar que pode fazer o meu trabalho. E uma das coisas que meu trabalho normalmente exige é andar silenciosamente e mover-me sem que seja notado.

- Mulher. – disse num tom áspero. – Em trabalhos como esse eu não levo acompanhantes. Eu acho a pessoa e a trago de volta para você, de preferência depois de ter me dado um pagamento inicial.
Ela me estudou com seus grandes olhos verdes. – Senhor Erdan – falou num tom de voz autoritário digno de um templário exigindo seu suborno. – eu não sou residente de Tyr, vim aqui apenas procurar meu querido Morn. E aqui tem moedas suficientes para que o senhor pare com as reclamações.

Num movimento rápido, ela jogou a bolsa de moedas no chão, espalhando algumas moedas na minha frente. Mais do que rapidamente, um rufião tentou pegar algumas, mas apenas levou um soco no estômago e vomitou o que parecia ser uma refeição mal digerida. Após o estúpido sair, eu recolhi as moedas – suficientes para vários dias de sobrevivência, vale comentar – e saí puxando a garota pelo braço da forma mais delicada que conheço. Apesar disso, ela protestou silenciosamente quando a levei para um dos inúmeros becos imundos da periferia de Tyr.

- Mas o que está fazendo, Senhor Erdan? – ela finalmente escapou de minhas garras e protestou. – Eu posso facilmente gritar e um guarda meio-gigante estará aqui.

Apenas tapei a boca dela, pois ela falava alto demais.

- Você terá de ser mais silenciosa se quiser achar Morn. – falei soltando aos poucos a boca dela. Mesmo tão próximo, eu não conseguia discernir nada dela, exceto seus vibrantes olhos. – E terá de chamar bem menos atenção. – falei, apontando para o saco de moedas.

- É o seu pagamento.

- Eu sei.

- Então. – ela cruzou os braços, um pouco desconcertada por sua atitude infantil. – Vai me ajudar a achar Morn?

Não tinha muito a perder. A garota parecia esperta o suficiente para manter-se calada quando ordenada, e muito mais moedas poderiam sair dela caso o serviço se prolongasse. Além disso, tinha uma reputação a zelar… e o Mercado Élfico não ficaria feliz com clientes morrendo após serem assaltados.

- Tudo bem, vamos. Siga-me e não fale nada até eu ordenar. Não faça nenhum barulho e controle sua respiração. Ela está alta demais.

Eu parti, e tudo que pude notar sobre minha contratante era que ela estava tentando respirar o mínimo possível, mas ainda assim de forma barulhenta. “Apenas mais um fardo”, pensei, “mas um fardo que vale água.”


Jenna, como se chamava minha contratante, estava há quase duas semanas atrás de Morn, seu marido. Ele tinha vindo mês passado para Tyr a negócios e deveria ter retornado para casa, mas não ocorreu. Não perguntei, mas achava estranho uma garota com muito dinheiro pedir ajuda a um caçador como eu do que para os templários. Eles fariam um trabalho muito mais espalhafatoso, claro, mas pelo menos teriam mais gente cobrindo a cidade do que um elfo e uma mulher coberta.

Mesmo assim, a palavra nas ruas era que Morn, um humano alto e bastante forte, tinha vindo com seus colegas de sua caravana para Tyr para reabastecer. Seu destino era um vilarejo próximo, talvez Kled, mas não imagino um bando de comerciantes artísticos, segundo Jenna, vendendo para anões endurecidos daquela cidade. Mas minha fome estava superando minha curiosidade e quando conversei com Pellot, um conhecido no Mercado Élfico, sobre onde estaria Morn, ele disse umas coisas interessantes sobre o tal fulano.

Morn tinha vindo até o Mercado Élfico. Apesar de estar bêbado e vulnerável, seus homens o vigiavam como guardiões primais vigiam um oásis, então os batedores de carteira élficos não fizeram nada. Mas Morn tinha um objetivo, o qual Pellot teve o prazer de “escutar sem querer”, segundo o próprio.

- Ele estava atrás de algum tipo de “tesouro”.

Olhei fixamente para Pellot e pensei duas vezes em socá-lo, mas usei meu sarcasmo no lugar. – Tesouro no deserto, certo? Conte-me porque você está me falando isso.

Ele engoliu seco. – Porque a chefia disse que quem fosse atrás do tesouro ia ter de enfrentar Karadan e seus homens. E eu mesmo não queria confusão.

Aquilo simplesmente não me pareceu certo e a surpresa de descobrir que o maldito traidor elfo que deveria estar morto estava vivo fez com que meu queixo caísse por um segundo. Recompondo-me, perguntei o mais sério que conseguia. – Quantos estão com ele?

- Seis, eu acho. Todos novos, nunca vi iguais. Provavelmente de outra cidade.

Pellot era um ladrão, mas ele tinha seus limites. E o medo nos olhos dele indicava que ele estava falando a verdade. Dei algumas moedas para ele, como gratidão, mas pedi para que ele mantivesse a matraca fechada. Para Pellot isso era um feito fenomenal como um golpista barato, mas ele sabia que eu odiava Karadan, e ele também odiava o maldito.

Pellot não tinha uma orelha por causa dele.


A viagem para Kled era rápida, se estivesse sozinho. Por causa de Jenna tive que carregar mais equipamento do que realmente era necessário. Na primeira noite já deveria estar próximo do destino, mas ela sentiu o cansaço vencê-la e finalmente se rendeu.

- Eu manterei guarda. Posso ficar alguns dias sem dormir. Agora descanse que logo partiremos.

A ideia de ficar alguns dias sem dormir não me animava, mas não tinha muita escolha. Pelo menos eu estava aquecido na noite fria de Athas, enquanto as estrelas me faziam companhia, me senti bem novamente. Mas isso durou apenas dois segundos, porque Jenna tinha se encostado em mim.

Confesso que fico surpreso com o comportamento das pessoas, e na maioria das vezes deixo passar, mas desta vez foi demais. Não estava ali para ser travesseiro ou consolo para ninguém. Esta ali para o trabalho. E quando completo o trabalho, eu sou pago.

Mal tínhamos passado o terceiro dia de viagem, quando Jenna acordou no meio do sono. Aquilo foi um aviso para mim também, e em pouco tempo eu estava viu engalfinhado em conflito. Tinha tudo acontecido muito rápido, mas agressores tinham nos descoberto, provavelmente duas pessoas perdidas no deserto. Muito pelo contrário.

Mesmo assim, enfraquecido e desnutrido, eu sucumbi ao ataque dos agressores. Jenna, prestes a sofrer o pobre destino das mulheres, quando iria ter sua roupa removida, foi salva por um homem. Este homem, alto e forte, caía perfeitamente na descrição de Morn.

Não era de surpreender que ele fosse o próprio.

Morn tinha nos rastreado até a pequena gruta que tínhamos nos abrigado. Logo eu estava preso e caminhando em direção a um pequeno vilarejo nômade a oeste de nossa posição. “Oeste”, pensei, “provavelmente um acampamento élfico.”

E, mais uma vez, minha intuição tinha se provado correta. Muitos elfos, meio-elfos e alguns membros de outra raça que estavam realizando negócios estavam no vilarejo. A cena só não ficou perfeita porque todos eles estavam na horizontal, com rastros de sangue e tripas espalhados pela terra rochosa, pintando o local de vermelho.

Foi então que, mais uma vez, minha intuição entendeu o instinto assassino de Morn. Ele era como eu, uma pessoa desprovida de moralidade. Fiquei fascinado.

- Então, Morn. – finalmente reuni forças suficientes para falar. – O tesouro que tinha rastreado não estava aqui, senão não teríamos voltado.

- Ele é bom. – disse Morn, olhando para Jenna, que estava solta, ao seu lado, mas não tinha falado nenhuma palavra desde então. – É por isso que o trouxe aqui, elfo, porque você deve saber onde seu povo esconderia um tesouro destes.

Um de seus guardas soltou minhas amarras e me jogou. Caí de rosto em um peito esburacado por um golpe de martelo, provavelmente. Era uma elfa grávida, e o bebê estava frito pelo sol impiedoso no chão ao seu lado. No desespero, tinha dado a luz ali mesmo. Admirei o seu ato de tentar proteger o filho, demonstrado por um braço envolvido no semi-feto. Mas um segundo golpe no pescoço mostrava o osso aparecendo.

- Ela deu um trabalho. Provavelmente era a vadia do chefe da tribo. – disse Morn.

Elfos normais sentiriam pena, ódio de Morn ou um desejo de vingança. Mas quando olhei para o bebê e a mulher, apenas conseguia pensar em quanto dinheiro conseguiria tirar do tesouro, e como conseguiria sobreviver a Morn.

- Muito bem. – eu disse. – Normalmente os elfos nômades guardam seus tesouros próximos às montanhas. Se tiver algum vivo ainda, eu posso conseguir a informação. Desde que me faça parte de seu grupo, é claro.

Eu vi o olhar de protesto de Jenna, mas antes dela mover a boca, Morn falou. – Muito bem, concordo com seus termos. Temos um vivo, ele estava apenas… recebendo um tratamento especial.

Devo dizer que já fiz algo assim, por isso não posso culpar Morn. Mas Morn não era cauteloso nem conseguia segurar seu instinto assassino. O elfo estava preso, fritando ao sol, com as pálpebras e orelhas cortadas. Já cego e quase enlouquecido pela dor, ele estava balbuciando uma antiga cantiga élfica, errando todos os seus versos. Uma verdadeira falta de necessidade. Meu primeiro pensamento foi acabar com a vida daquele miserável, mas eu precisava das respostas.

Com alguns minutos de tortura e interrogatório, consegui tirar de Dalyn, ou qualquer que seja seu nome, a localização do tesouro. Felizmente eles me deixaram cortar o pescoço do maldito antes de partirmos até as montanhas. Jenna estava cada vez mais desapontada comigo, mas ainda assim, me olhava com certo respeito.


Nas montanhas, pude ouvir o som de perseguidores. Era Karadan e seu bando, que estavam nos caçando há dias. Morn tinha os percebido apenas no dia anterior, o que me deixou desapontado, pois tinha grande admiração por sua indelicadeza.

- Eles provavelmente nos emboscarão à noite de hoje. – eu disse. – Portanto, é melhor deixar os homens preparados.

Com uma palavra, os homens de Morn se reagruparam de modo quase militar. O que me levou a pergunta: ele era muito bem educado e sabia de muitas coisas, então seria ele um ex-templário? Ao que tudo indica, sim.

Mas a emboscada, apesar dos preparativos, apenas serviram como distração. Pois Karadan e alguns de seus elfos investiram diretamente contra os homens de Morn, pegando-os de surpresa. Morn, em si, percebeu que não poderia vencer e fugiu. Jenna foi atingida no joelho por uma flecha, então fui lá buscá-la.

- Minha perna! – ela urrou. – Remove a flecha, logo!

A flecha tinha fraturado o osso e expandido a rótula. Se eu removesse, ela talvez sangrasse até a morte. – É melhor amputar. Você terá mais chances dessa forma.

- Não! – ela gritou. – Não tire minha perna de mim!

Os olhos dela eram de uma determinação indomável. Por um momento vacilei, pois nunca tinha visto tal determinação antes. Entretanto, uma flecha passando perto de minha orelha me trouxe de volta ao mundo dos vivos e alertas, então quebrei a flecha e, colocando-a nas costas junto com nossas coisas, parti para o meio do deserto.

Não sei como terminou o conflito Karadan versus Morn, mas sabia que estava a quase cinco dias sem dormir, cansado e morrendo de fome, além de estar carregando meu fardo nas costas, Jenna. Após algumas horas de caminhada, pude jurar que vi um oásis, mas logo pensei em miragem, até que me toquei que ainda era noite.

Corri rapidamente para o local florestado e me pus a tomar sua água. Um descanso bem-merecido após dias de trabalho duro. Mas antes de desmaiar em sonhos profundo, tive certeza de garantir que estávamos sozinhos e que Jenna estava viva.

Ela tinha perdido bastante sangue, mas Jenna era mais resistente que eu poderia imaginar. Após fazer uma bandagem em si mesma, milagrosamente ela estava de pé, apoiando-se com uma vara. Ou ela era uma exímia médica, ou tinha algum poder que eu não percebi. Ainda assim, eu não estava nem um pouco interessado e dormi.

Tive um sono sem sonhos e, quando acordei, Jenna não estava ao meu lado. Perfeito, meu pagamento tinha fugido ou sido sequestrada. Mas quando voltei a mim, ela estava se banhando no lago.

Devo admitir que, em questão de beleza estética, Jenna estava muito acima da média. E quando digo muito, quero dizer que ela foi a criatura do sexo feminino mais bonita que já vi. Até meu queixo caiu. É sério.

Quando ela percebeu que estava sendo observada, tratou de se cobrir e retornar a seu velho modo “encoberto”. Entretanto, desta vez, deixou o rosto à mostra, algo que com certeza era novidade.

- Pois você é mais safado que imaginava, Erdan. – ela sorriu, enquanto seu rosto se aproximava do meu. Ainda sentado na terra fofa do oásis, ela sentou sobre mim, forçando-me a deitar e jogando seu corpo por cima do meu.

Devo admitir, fiquei intimidado com a situação. – Deixe-me agradecer de um modo especial por ter salvo minha vida.

É a mais pura verdade. Quando eu digo que as pessoas agem estranho, eu não estou brincando.


Mesmo após eu e Jenna nos tornarmos “mais íntimos” num oásis temporário, eu tinha um serviço a cumprir. E como sempre, tenho de manter minha reputação.

Pois após nos recuperarmos, fomos até o local da briga e encontramos vários cadáveres, mas sem Karadan e Morn. Jenna, já com o rosto novamente coberto, ficou entristecida. Ela segurou meu braço, na clara intenção de que estava emocionalmente ligada a mim, algo que eu não retribuí, então soltou um gemido, que parecia mais de raiva do que de angústia.

- Ele deve estar no local do tesouro.

O óbvio, como sempre, bate na cabeça das pessoas. Então para o local do tesouro nós fomos. Lá nos encontramos Karadan e mais dois guardas do lado de fora da gruta indicada pelo elfo moribundo. Provavelmente Morn estava lá dentro esperando que eles caíssem numa armadilha.

- Saia já daí, seu cão. – disse Karadan, bravejando enquanto tremia o pano que cobria seu olho perdido. – Saia e terá uma morte rápida e limpa.

Não gosto dos clichês das histórias contadas pelos bardos, mas chamei a atenção de Karadan após derrubar seus capangas. De arco abaixado, nós dois finalmente nos observamos.

- Você por aqui? – exclamou Karadan.

O óbvio novamente, lembram? – Você está perdendo seu tempo, Karadan. Isso provavelmente é apenas um vaso de flores dos restos mortais de um antepassado dele. Não existem tesouros élficos. Você, mais do que ninguém, deveria saber disso.

O ódio cresceu no rosto de Karadan. – Seu filho de uma puta! Você não sabe pelo que eu fui forçado a passar para entregar a Tribo Shtar. Eles eram meu povo também! E você tenta me assassinar com uma flecha no olho e depois se gaba de ter uma moralidade maior que a minha.

Eu não tinha moralidade. – Pois eu acho que devemos comprovar isso agora, não?

Após alguns segundos de silêncio, eu pude escutar a respiração pesada de Jenna atrás de mim. Não precisei me virar – e seria estupidez nesta hora – para saber que seus olhos estavam cheios de lágrimas. Mulheres ficam tão sentimentais nestes momentos.

Não demorou muito para que o mais rápido agisse. Levei uma flechada no ombro, mas, para o azar de Karadan, meu alvo foi seu outro olho. Gemendo de dor, ele só conseguia me amaldiçoar de formas duplas e triplas.

Morn, vendo o pior passar, apenas saiu e ao ver a flecha penetrando meu ombro, se sentiu melhor ainda. – Querida! Você me trouxe alegria trazendo o elfo para mim.

Foi então que tudo se encaixou, como aqueles quebra-cabeças de cerâmica que os anões fazem para as crianças ricas e nobres. Morn sabia que era uma tribo élfica que detinha o tesouro, mas não podia contar com ninguém, exceto um elfo que não fosse da tribo, para rastrear o local. Foi por isso que ele foi para o Mercado Élfico, mas quando não conseguiu nada, ele enviou sua concubina, Jenna, contratar um elfo que não fazia parte do Mercado.

Ou seja, eu era um erdlu para o abate.

- Agora, minha querida, vamos embora. – ele carregava uma urna consigo. – Os elfos queriam que nós acreditássemos que fosse apenas uma urna, mas dentro dela tem algo muito mais valioso.

Num movimento rápido, Morn chutou meu peito, e caí de costas para o chão. Ele puxou sua espada para desferir o golpe final, mas rolei para o lado, quebrando a flecha no meu ombro e arrancando um urro de dor meu. Morn tentava me acertar, mas eu era bem mais ágil que ele. Mesmo assim, estava sangrando e ferido, enquanto Jenna, com seu rosto descoberto, apenas observava a luta.

O movimento de espada de Morn foi rápido o suficiente para que ele cortasse meu abdômen e eu caísse de joelhos em frente a ele. Eu já tinha visto – e até participado – de cenas como estas. Provavelmente minha última visão seria de meus joelhos contra as pedras, enquanto meu corpo caía sem a cabeça presa pelo pescoço.

Sempre fui independente e nunca esperei nada de outros, mesmo quando era criança, mas neste momento eu me senti muito bem quando Jenna decidiu que Morn esta prestes a me matar e enfiou a espada de Karadan em suas costas. Morn já estava ferido e não conseguiu suportar a dor de trinta centímetros atravessando suas costelas e perfurando seu pulmão. Mas eu não podia arriscar. A ideia foi sem refinamento, mas funcionou. Duas pedradas no crânio de Morn e eu estava contando os miolos espalhados pela pedra no chão.

Após remover a flecha do ombro, Jenna me abraçou forte com lágrimas nos olhos. Aquilo doeu muito, mas pareceu errado empurrá-la, portando dei tapinhas nas costas dela e disse que ia ficar bem.

O conteúdo da Urna era de pedras preciosas e alguns objetos de metal… extremamente raros por Athas. Mas minha intuição estava errada na primeira vez que deduzi o plano de Morn, pois não era o plano de Morn, e sim de Jenna que tinha funcionado.

Jenna nada mais era do que uma mercadora que tinha sido escravizada e possuía poderes mágicos. Nunca fui fã de magia, mas ela é bastante eficiente quando bem utilizada. Com algum senso de moral ainda vivo nela, ela deixou o dinheiro comigo, com um bônus de um beijo longo que deixou meu corpo entorpecido. Eu dormi novamente, enquanto ela me colocava carinhosamente no chão, dizia algo sobre amor, necessidade de ir, objetivo maior e depois partiu. Foi a última vez que vi Jenna.

Quando levantei, até o próprio Karadan tinha desaparecido. O coitado, sem olhos, não sobreviveria algumas horas no deserto. Sem pestanejar, peguei meu dinheiro e parti para Tyr. Destino ou acaso, Jenna foi a primeira maga dos Preservadores que conheci. Nunca mais vi mais um deles.

View
A Morte de Uma Criança
Conto

A pálida mulher, Varlana, segurava a criança profanada, Sachla, em seus braços,
chorando sobre ela lágrimas de doce tristeza. Ela era inocente e não merecia o destino que
tivera. Varlana rezou, rezou para que os elementos a levassem em seu lugar, rezou para que
eles soprassem a vida de volta na doce criança que ela segurava em seus braços, rezou para que
os velhos parassem de viver mais que os jovens, porque não era assim que devia acontecer. A
criança ainda tinha anos pela frente, mas por causa da crueldade desse mundo, o único mundo
que ela conhecia, a criança estava morta.

Pegando o seu cajado, Varlana enxugou seus olhos, e então beijou a testa da criança,
sussurrando que ela seria vingada e que ela a veria brevemente.

Não era difícil seguir o rastro dos saqueadores, e ela logo partiu a toda velocidade,
rastreando sua presa, a vingança em seu coração, e uma determinação em sua cabeça.

Menos de trinta minutos depois, ela viu, ao longe, sinais de um acampamento. Usando o
que suas companheiras irmãs a ensinaram, silenciosamente esgueirou‐se até o acampamento,
ouvindo cuidadosamente o alvoroço que nele ocorria.

Ela os ouviu brincar e contar vantagem, sobre como eles tinham pego Sachla de
surpresa, a imobilizado e estuprado, e então cortado a sua garganta e roubado a pouca água
que ela tinha, furiosos por ela não ter outras posses.

Isto era tudo o que Varlana precisava ouvir, pois o que foi ouvido a seguir, foi seu grito
invocando os espíritos que a transformam num feroz predador, enquanto ela saltava na clareira e começava seu ataque mortal.

Eram seis ao todo, e ela os tinha pego de surpresa, mas esses caras eram veteranos, e ela
era ainda “verde” como alguns poderiam chamar, ainda assim uma oponente formidável.

O primeiro era o mais surpreso e caiu com dois golpes mortais de Varlana antes que
pudesse aprontar suas armas. Os outros, entretanto, estavam prontos para ela a essa altura.

Um deles, aparentemente o líder, olhou para Varlana e sorriu e disse numa voz áspera
“Parece que nóis arrumô outro daqueles povo selvagem!”

Os outros sorriram com isso e se prepararam para jogar Varlana no chão para que
pudessem fazer melhor suas coisas com ela. Entretanto, Varlana não iria deixar as coisas
acontecerem tão facilmente.

Varlana saltou para o mais próximo e aparou seus ataques e contra‐atacou com seus
próprios golpes, que também foram aparados. A essa altura ela começou a se preocupar que
tudo isto não daria em nada, porque não somente esse cara estava defendendo seus ataques
com grande habilidade, mas porque ela estava prestes a ser flanqueada por um dos outros, e ela
não se achava boa o suficiente para lidar com dois ao mesmo tempo. Pensar nisso a deixou
apenas com mais raiva, e ela fez com que essa raiva trabalhasse para ela.

Ela imediatamente começou a bater forte no oponente atual, seus ataques chegando
árduos e rápidos, cada vez mais rápidos enquanto eram aparados. Antes que ele pudesse
perceber, o oponente não estava fazendo nada a não ser se defender, já que não poderia aparar
os ataques de Varlana rápido o suficiente e fazer um contra ataque sem ser atingido pelo
próximo ataque que ela desferiria contra ele.

Finalmente, ele bloqueou errado e ela conseguiu desarmá‐lo e em seguida feri‐lo com um
mordida na garganta. Ele caiu ao chão gorgolejando, bem em tempo, já que os outros estavam
chegando para encará‐la.

Os outros três homens correram para cima dela enquanto o líder recuava e olhava
divertido. Ela esquivava e bloqueava a maioria de seus ataques, mas um tinha acertado o alvo e
causado uma boa ferida através de suas costas. Varlana sentia dificuldades em contraatacar
já aparentava cansaço no embate e o corte arruinou o equilíbrio e a harmonia que
ela tinha em seus movimentos. Ainda assim, ela era capaz de demonstrar o seu valor.

Ela se concentrou apenas em atacar aquele que passou por suas defesas, enquanto se
defendia do resto. Ele era um bom páreo, mas ela estava ganhando dele. Ela continuava
desferindo golpe após golpe, enquanto ele defendia e, de vez em quando, contra‐atacava, ela
desviava dos golpes dos outros do melhor modo que podia. Após vários segundos, entretanto,
conseguiu atingir o alvo.

Ele não conseguiu bloquear um de seus ataques, o que deu um rasgo superficial em seu
peito, vendo a brecha, ela não parou por ali. Ela prosseguiu com corte após corte, alguns ele
bloqueou, outros não. Quando ela terminou, ele caiu ao chão num monte disforme, em pedaços.

Ela então se girou para aquele que estava a sua direita e quebrou sua espada de osso em
duas quando ele tentou bloqueá‐la, ferido com um corte da cabeça à virilha, antes de cair morto
no chão também.

A essa altura o líder não mais se divertia e vinha para o corpo‐a‐corpo, enquanto o que
restava lutando com Varlana decidiu virar‐se e fugir, não antes que ela lhe desse uma mordida certeira na garganta, matando‐o.

O líder se aproximou, espada longa de metal em punho, e atacou com as duas mãos na
direção do peito de Varlana, mas ela bloqueou com agilidade. Virando-se tão agilmente quanto se defenderá, golpeou de forma certeira sua virilha.

O líder rugiu, e bateu forte contra Varlana enquanto ela estava no balanço do seu golpe. Seus
golpes viam fortes e constantes. Varlana doíam com cada bloqueada, até o líder finalmente achar uma abertura e cortar Varlana do braço esquerdo até o seu peito.

Ela gritou e caiu de cara no chão, ainda segurando a espada longa de osso de um de seus
inimigos. O líder dos saqueadores a ergue sobre seus pés enquanto a segurava pelos ombros
por trás. Ele colocou a espada em sua garganta enquanto falava “Eu vou realmente gostar de te
ouvir gritar, agora, você pode deixar cair se render e viver, ou morrer lutando em vão, de qualquer modo você vai conhecer a dor como nenhuma outra antes que eu te deixe ir ou te mate”.

A única resposta ofegante de Varlana, através de seus dentes cerrados foi “Vingança!”
Enquanto ela se atirou, transformando-se novamente em fera, sobre seu algoz e cravou suas garras sobre os peitos dele e atingido o coração do seu adversário.

Ambos ficaram em pé por um instante antes dele soltar seu último suspiro e tombar no
chão morto.

View

I'm sorry, but we no longer support this web browser. Please upgrade your browser or install Chrome or Firefox to enjoy the full functionality of this site.